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Grande Angular

Lições globais do governo da Estônia, com experiência em tecnologia

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© Stefano De Luigi/VII
A pequena Estônia, com uma população de 1,3 milhão de habitantes, está entre as sociedades mais avançadas digitalmente em todo o mundo. Conforme a organização Freedom House, o país escondido no nordeste da Europa também desfruta de uma das maiores liberdades - econômica, de imprensa e de internet - do mundo. O segredo da ascensão dessa pequena nação como uma potência digital se encontra nos avanços pioneiros realizados por seu governo sob a iniciativa e-Estonia – promovendo educação ostering inovadora, negócios virtuais e cidadania digital.

Por Mari Roonemaa

A história inspiradora de como a Estônia se tornou E-stonia – uma piada apropriada criada pelo ex-presidente Toomas Hendrik Ilves – teve início em 1996, com a ajuda da Tiger Leap Foundation (Fundação Pulo do Tigre), um órgão de investimentos em tecnologia apoiado pelo governo. Pouco tempo depois de sua independência da União Soviética em 1991, o país decidiu que a economia online e a inovação tecnológica massiva eram o caminho a ser seguido por um pequeno país sem recursos naturais aos quais recorrer. Por meio da Tiger Leap, todas as escolas estonianas já estavam online no final da década de 1990, e grandes investimentos foram realizados em redes e em infraestrutura de computadores.

Cinco anos depois, 10 empresas privadas e públicas formaram uma forte parceria público-privada, criando a Look@World Foundation (Fundação Olhe para o Mundo). Apoiado pelos setores de telecomunicações e bancário, o projeto promoveu a conscientização digital e popularizou o uso da internet e das tecnologias da informação e comunicação (TIC), em especial na educação, na ciência e na cultura. O primeiro projeto da iniciativa teve como objetivo superar a “hiato digital” do país, fornecendo formação gratuita em informática para 102.697 participantes, ou 10% da população adulta. Além disso, as crianças estonianas aprendem programação de computadores a partir dos 7 anos de idade. Até agora, não se olhou para trás. Em julho de 2016, 91,4% dos estonianos usavam a internet, um grande salto em relação ao ano 2000, quando apenas 28,6% da população estava conectada.

A cooperação é a chave

As chaves para o sucesso da e-revolução da Estônia têm sido a cooperação e a reciprocidade. Sucessivos governos apoiaram a e-Estonia, desde o seu lançamento no início da década de 1990. O setor privado, instituições acadêmicas e cidadãos, todos cooperaram para o sucesso da iniciativa. A reciprocidade se deve ao fato de que o Estado ganhou a confiança de seus cidadãos, os quais, por seu turno, concederam ao Estado o acesso pleno a seus dados pessoais. Os estonianos têm um programa de identificação digital que faz inveja a países muito maiores – eles são capazes de realizar online quase todos os serviços municipais ou federais em questão de minutos.

Para assegurar a transparência e a responsabilização, é permitido aos cidadãos monitorar a própria privacidade. Eles podem rastrear qualquer pessoa que tentou acessar seus dados, conectando-se ao portal estatal, o eesti.ee. Têm havido poucos casos – entre médicos e policiais, por exemplo – nos quais pessoas foram condenadas por acessar bases de dados de forma antiética. “Você não pode subornar um computador”, disse uma vez Toomas Ilves, que foi presidente da Estônia entre 2006 e 2016 e liderou a revolução digital no país.

Terra do Skype

A Estônia abriu suas fronteiras para atrair talentos e alimentar a economia start-up da nação. Com mais de 400 start-ups, Talin, a  capital, foi chamada pelo New York Times de “uma espécie de Vale do Silício no Mar Báltico”. Esta é a terra onde foi criado o Skype, o serviço gratuito de vídeo que revolucionou a forma como o mundo se comunica. É um cartão de visitas que colocou a Estônia firmemente no mapa mundial. Agora, Skype também é uma palavra no Oxford English  Dictionary! Outras start-ups notáveis incluem a TransferWise, um serviço de câmbio, e o Jobbatical, um website de empregos que permite às pessoas que viajam pelo mundo estender suas viagens.
 
O setor terciário, ou “setor livre” da Estônia tem desempenhado um papel ativo em dar forma à governança aberta e à e-democracia.  Para coordenar as contribuições públicas para o debate sobre políticas, foram criados três diferentes portais, financiados pelos contribuintes. De acordo com o secretário de Estado, Heiki Loot, “a Estônia é conhecida por ser o único país onde os processos de elaboração da legislação e de coordenação interministerial são transparentes”. 
 
Em 2016, a Estônia foi reconhecida como um dos países que melhor incluíram as ONGs no processo de consulta do plano de ação do governo aberto. No ano passado, foi lançado o portal de iniciativa cidadã Rahvaalgatus.ee, o que tornou possível a elaboração e o envio de iniciativas coletivas para o Parlamento Estoniano.
 
A Estônia também realizou alguns movimentos ousados quanto à experimentação de métodos modernos para o processo decisório. A Rahvakogu ou Assembleia Popular é um bom exemplo disso. Originalmente uma plataforma de crowdsourcing de ideias para realizar emendas em leis eleitorais, três de 15 propostas enviadas ao Parlamento por meio da plataforma online efetivamente se tornaram leis.


As crianças começam cedo com os computadores: uma aula de programação na Escola Secundária Gustav Adolph, em Talin.
© Stefano De Luigi/VII

Famintas por TI

Como a Estônia irá garantir que o Tigre do Báltico continue a avançar em saltos? Ave Lauringson, especialista chefe da Unidade da Sociedade da Informação do Ministério da Economia e das Comunicações, diz ser um sinal positivo que, além do governo, as pessoas em geral também se tornaram “famintas por TI”. Ao longo dos anos, a educação em TI se espalhou das escolas para as comunidades e para os passatempos educativos. Recentemente, mais de 200 pessoas – a maioria pais – foram treinados a ensinar robótica como uma atividade extracurricular. “Um terço dos estudantes que tiveram contato prévio com passatempos relacionados à TI admitiram que isso teve um efeito em suas decisões posteriores relativas à carreira”, afirma Lauringson. 
 
Eesti 2.0, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo inspirar jovens estonianos a seguir um futuro na tecnologia – tendo Ilves como seu patrono – fornece aos estudantes diferentes ferramentas tecnológicas, assim como ideias para aplicar essas tecnologias. A ideia, conforme o site da organização (eesti2.ee), é “alimentar o pensamento criativo entre as disciplinas e conectar teorias com base científica a fenômenos e eventos da vida real”. 

A robótica, os clubes de codificação e a programação são populares, mas a questão de um relacionamento mútuo entre os jovens e o e-Estado permanece controvertida. “A maior surpresa é que jovens que têm diferentes habilidades digitais frequentemente não as demonstram ao fornecer uma assinatura digital, por exemplo”, diz Lauringson. “Eles não tiveram uma necessidade como essa para os diferentes e-serviços, mas assim que se tornam adultos, ela aparece. Enquanto isso continuar a ser um problema, eles não serão capazes de dialogar com o e-Estado”.
 
Outro grande desafio consiste na crescente alfabetização informacional para as gerações mais velhas, com muitas pessoas com mais de 60 anos que lutam com as habilidades básicas. Com a Tiger Leap, as bibliotecas públicas estonianas se tornaram centros de internet, e as pessoas idosas ainda usam essas bibliotecas para acessar o e-Estado. Com frequência, isso transforma os bibliotecários em “especialistas em TI” que estão sendo treinados para dar conselhos.

Cap 2020

A conscientização sobre a segurança e a proteção de dados continuam a ser objetivos importantes na era digital. Autoridades públicas têm realizado essa conscientização e chamado atenção para o comportamento inteligente na internet, por meio de diversas campanhas e ações. Por exemplo, a União Estoniana para o Bem-estar das Crianças atua na prevenção da distribuição online de material sobre abuso sexual infantil. Vários programas educacionais são conduzidos pela Information Technology Foundation for Education (HITSA), que visa a avançar e intensificar a cooperação entre as indústrias de TIC, as instituições de ensino e o Estado.

O mais popular desses é o programa ProgeTiger, iniciado por Lauringson. Esse programa único, fruto de uma parceria público-privada, lançou um sistema nacional para ensinar crianças em idade escolar, dos 7 aos 19 anos, a como codificar. O ProgeTiger combina o ensino de três campos integrados: ciências da engenharia, design e tecnologia, e TIC.

A obtenção de professores qualificados continua a ser um grande obstáculo. O professor Jaak Vilo, do Instituto de Ciências da Computação da Universidade de Tartu, recentemente declarou que não seria possível treinar professores de programação suficientes mesmo ao longo dos próximos 10 anos. Ele se propôs a organizar cursos online para graduados do ensino médio. “Existem cursos online gratuitos (MOOCs) para adultos, mas nós precisamos urgentemente iniciar algo similar para as gerações mais jovens”, afirma Vilo.

Até o momento, não existem dados suficientes para mensurar a alfabetização digital. O primeiro momento da verdade acontecerá em 2018, quando alunos da nona série realizarem sua primeira prova nacional sobre habilidades digitais. Sabe-se que as pessoas são capazes de usar o computador, mas tais habilidades não são suficientes para promover inovações – é preciso criar conteúdo digital e tecnológico. Embora os resultados das provas do Programa para a Avaliação Internacional dos Alunos (PISA), de forma lisonjeira, coloquem a Estônia no topo do mundo, não se pode descansar nos próprios louros. A solução de problemas complexos, o pensamento crítico, a criatividade, a gestão de pessoas e a inteligência emocional serão as habilidades mais importantes de se ter em 2020. Também é preciso descobrir como manter os estudantes felizes, para que eles continuem a desfrutar do processo de aprendizagem.

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Mari Roonemaa

Mari Roonemaa (Estônia) é coordenadora de mídia na Open Estonia Foundation (Fundação Estônia Aberta), que nos últimos 27 anos tem trabalhado para ajudar a desenvolver democracias e sociedades abertas na Estônia e em outros países. Ex-editora de uma publicação que cobre o terceiro setor estoniano, ela também é jornalista freelance.