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Grande Angular

A pequena rã que perdeu seu brilho

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Durante o Festival da Rã Dourada, realizado anualmente pelo Centro Natural Punta Culebra (Smithsonian Tropical Research Institute), na Cidade do Panamá, as crianças conhecem o anfíbio que se tornou o símbolo ecológico e cultural de seu país.
Rana dorada: CC BY 2.0 by Brian Gratwicke

Muitos cientistas veem o desaparecimento maciço de diversas variedades de rãs da América Central como um sinal da sexta extinção. Esse é um dos indícios de que estamos entrando no Antropoceno, que alguns acreditam irá exterminar um quarto de todos os mamíferos, 40% dos anfíbios, corais e muitas outras espécies de todo o mundo. 

No Panamá, cientistas e líderes nacionais estão em uma corrida contra o tempo para evitar que uma espécie lendária, a rã-dourada-do-panamá, desapareça para sempre. Investigações mostram que os seres humanos são realmente responsáveis, tendo introduzido na América do Sul um fungo invasivo que é altamente tóxico para os anfíbios.

 

Karla Jiménez Comrie

Segundo uma lenda pré-colombiana da região central do Panamá, a rã dourada traz boa sorte. Qualquer um que a veja ou consiga capturá-la terá um futuro feliz. Sua tez amarela brilhante, pintada com manchas cor de café, era uma fonte de alegria para tribos indígenas, pois acreditavam que, quando o anfíbio morria, seu pequeno corpo se transformava em ouro.  

Descoberta nos arredores da pequena cidade de El Valle de Antón e no Parque Nacional Altos de Campana, e endêmica à área central do Istmo do Panamá, por muito tempo a rã-dourada-do-panamá (Atelopus zeteki) frequentou e decorou os córregos e rios da selva panamenha. O Panamá fez da rã dourada um símbolo ecológico e cultural, dedicando a ela até mesmo um dia nacional – 14 de agosto. A rã é tão popular que adorna objetos de arte e de artesanato, joias, pôsteres de festivais e até bilhetes de loteria. Também empresta seu nome a hotéis, cervejas artesanais e boutiques. Todavia, isso não impediu o seu desaparecimento das florestas do istmo.

De acordo com o herpetologista panamenho Roberto Ibáñez, um pesquisador no (Smithsonian Tropical Research Institute – STRI) no Panamá, os primeiros sinais de declínio foram percebidos entre 1993 e 1996. Edgardo Griffith, um biólogo panamenho, lembra-se de ver rãs morrendo durante uma expedição em El Valle de Antón, no final de 2005. Não se sabia por que elas estavam morrendo, mas o alerta de Griffith coincidiu com outra pesquisa que questionava o status do anfíbio. As rãs foram vistas pela última vez na natureza em 2007 – em uma curta cena filmada pela BBC para um dos documentários, da série Life in Cold Blood, sobre répteis e anfíbios.

A causa desse massacre vem a ser o Batrachochytrium dendrobatidis (também conhecido como Bd), um fungo do filo Chytridiomycota que está ameaçando a população mundial de anfíbios por transmitir a quitridiomicose, uma doença que, como explica Ibáñez, “infecta a pele da rã, perturbando a maneira como ela funciona”. Uma das funções da epiderme da rã consiste em manter o equilíbrio de água e sais minerais entre o corpo do animal e seu ambiente. Em rãs infectadas com Bd, o transporte de eletrólitos é interrompido, o que reduz as concentrações de sódio e de potássio no sangue, levando à parada cardíaca.  

Um fungo invasivo

De onde vem o Bd? Provavelmente da África. Pelo menos essa é a hipótese mais amplamente aceita entre os biólogos panamenhos. O Bd quitrídio ocorre naturalmente na epiderme da rã-de-unhas-africana (Xenopus laevis), originária do sul da África – essas rãs foram amplamente usadas em testes de gravidez a partir dos anos 1930. Sem saber que o rã-de-unhas era o vetor daquela doença, o teste com anfíbios foi exportado para outras partes do mundo, o que ocasionou a sua propagação.

No Panamá, acredita-se que o fungo foi transmitido pelo contato com esses anfíbios, diz Ibáñez. Ele ressalta que o quitrídio já se espalhou por todo o país e agora está infectando outras espécies de anfíbios. Como resultado, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificou o Bd como uma das 100 piores espécies exóticas invasivas do mundo (link em inglês), devido a seu “impacto desastroso sobre a diversidade biológica”.

Griffith o descreve como um “organismo muito eficaz, que reduz a biodiversidade, altera a demografia e as dinâmicas da reprodução, e extermina 100% dos indivíduos de determinadas espécies”. Está presente em todos os lugares – no Panamá, bem como em outros países latino-americanos.  

Uma Arca de Noé para anfíbios

Embora atualmente nenhum tratamento eficaz contra a doença esteja disponível, os cientistas esperam um dia reintroduzir a rã dourada em seu habitat natural. Em 2011, o governo lançou o Plano de Ação para a Conservação dos Anfíbios no Panamá (Action Plan for the conservation of the amphibians of Panama). Envolvendo três componentes – pesquisa, conservação e educação –, este é um primeiro passo rumo à solução do problema. O Centro de Conservação de Anfíbios de El Valle (Fundação EVACC), comandado por Griffith, também está trabalhando para a preservação da rã dourada – embora, nesta fase, ela ainda seja mantida em cativeiro. O zoológico do Centro é o lar de cerca de 4,5 mil rãs, das quais mil são da variedade dourada.

No outro extremo do país, em Gamboa – às margens de uma floresta tropical na antiga área do Canal do Panamá – Ibáñez dirige o Projeto de Resgate e Conservação de Anfíbios (Amphibian Conservation and Rescue Project). Criado ex situ em 2009, esse projeto visa a garantir a reprodução de espécies ameaçadas de extinção, especialmente aquelas afetadas pelo fungo quitrídio. É um tipo de Arca de Noé, que usa espécimes cativos em um esforço para reconstituir as populações das espécies mais ameaçadas – até que seja encontrado um tratamento eficaz para o fungo Bd. Situado a 22 quilômetros da Cidade do Panamá, o centro abriga 1,2 mil exemplares de rãs pertencentes a nove espécies – com a exceção da rã dourada. No entanto, Ibáñez diz que espera receber alguns espécimes de Atelopus zeteki da Fundação EVACC até o final de 2018.

A rã dourada irá recuperar seu antigo brilho? Os cientistas estão convencidos de que sim. Até lá, devemos esperar que a pequena criatura tenha, ela própria, o futuro feliz que simboliza para o povo do Panamá.

Karla Jiménez Comrie

É panamenha e jornalista freelancer especializada em cultura e meio ambiente. Ela trabalhou no Sistema das Nações Unidas e foi repórter para o jornal diário La Prensa.