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Grande Angular

A perspectiva da Dominica: Antropoceno ou Capitaloceno?

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"Sigue a los Líderes" (Siga os líderes), uma instalação do artista espanhol Isaac Cordal na exposição "Fragil" (Frágil, Bruxelas, 2015). As pequenas esculturas representam homens de negócios quase se afogando em uma mistura de água e petróleo.

A mudança climática não decorre da mera existência de bilhões de seres humanos que habitam o planeta, mas é causada pelos poucos que controlam os meios de produção e tomam as principais decisões sobre o uso da energia, afirma Andreas Malm. No que pode ser considerado mais Capitaloceno do que Antropoceno, um confronto direto com o capital proveniente dos combustíveis fósseis é indispensável para evitar eventos climáticos extremos, como os furacões que devastaram a Dominica*.

Andreas Malm

A Dominica costumava ser uma cadeia de colinas cor verde esmeralda, emergindo diretamente do Mar do Caribe. Quando visitei a nação insular em agosto de 2017, ela continuava coberta por verdes matas, cada cume e ravina cobertos com vegetação. A ilha mais montanhosa da região, com a maior cobertura florestal preservada, era uma maravilha de esplendor natural, mas também pobre. A maior parte de seus 70 mil habitantes – em sua maioria descendentes de africanos – subsistia da agricultura de pequena escala. A banana, a banana-da-terra e o inhame eram complementados com alguma pesca e um pouco de turismo.

A ilha já havia sofrido um golpe antes. Em 2015, a tempestade tropical Erika derramou torrentes de água sobre as colinas, até que algumas delas cederam e desabaram. Na época da minha visita, o país ainda estava se recuperando do desastre, claramente visível na sua parte sudeste, onde as encostas foram cortadas por deslizamentos que levaram o solo superior, árvores e casas. As estradas estavam sendo reconstruídas, e novos assentamentos foram erguidos para abrigar os sobreviventes.

Seis semanas após a minha partida, em 18 de setembro de 2017, o furacão Maria acelerou subitamente para um sistema de categoria 5 – uma das intensificações mais explosivas de um furacão já registrada – e bateu diretamente na Dominica. Em uma noite, a ilha verde se tornou marrom. Os ventos extraordinariamente ferozes simplesmente varreram a cobertura florestal.

Sentimento de perda incalculável

Folhas e galhos foram espalhados pelo mar, troncos desfolhados permaneceram em pé no que pareciam ser áreas desmatadas – se a tempestade tropical Erika havia arranhado a ilha, o furacão Maria a esfolou. Dessa vez, toda a infraestrutura – casas, estradas, pontes, hospitais, escolas – foi pulverizada, e o setor agrícola foi destruído. O custo financeiro foi estimado em duas vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do país, mas, como informou a agência de notícias IRIN, “o sentimento mais profundo de perda está fora de alcance”.

No primeiro mês após o furacão Maria, um quinto dos habitantes pegaram os poucos bens que puderam ser recuperados e partiram. Aqueles que ficaram falavam de si mesmos como soldados em um campo de batalha: o discurso bélico varreu o país. Cinco dias após o furacão, o primeiro-ministro Roosevelt Skerrit, ele próprio desabrigado, dirigiu-se à Assembleia Geral das Nações Unidas: “Venho até vocês diretamente da linha de frente da guerra. [...] À medida que os dominiquenses sofrem com o peso da mudança climática, nós estamos arcando com as consequências das ações de outros, ações que colocam em risco a nossa própria existência, e tudo para o enriquecimento de alguns poucos em outros lugares”.

Os descendentes de escravos que habitam a Dominica não fizeram nada para aquecer este planeta, nem tampouco a pequena população indígena sobrevivente. Os agricultores de subsistência, que recorriam à condução de táxis ou à venda ambulante para complementar sua renda, tinham pegadas de carbono insignificantes e nenhum poder sobre o abastecimento de energia mundial. Ainda assim, no ataque do hiperfuracão, as principais vítimas foram exatamente esses agricultores: eles foram mortos, suas vidas foram devastadas, e a própria terra em que se encontravam foi destruída.

Somos todos responsáveis?

No discurso sobre a mudança climática, tal como se desenvolveu no meio acadêmico ocidental, na mídia e nos grupos que formulam as políticas ao longo da última década, uma outra narrativa se instalou. Ela diz que o problema foi criado por todos nós. O aquecimento global é culpa da espécie humana como um todo. Vivemos no Antropoceno, a época em que nossa própria espécie superou as forças naturais na determinação da trajetória deste planeta, de forma mais óbvia no campo do clima – portanto, os seres humanos em geral são responsáveis pelas catástrofes subsequentes.

Uma afirmação explícita dessa lógica pode ser encontrada em um dos mais célebres livros sobre o tema nos últimos anos: The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable (2017), do autor indiano Amitav Ghosh, no qual aprendemos que o aquecimento global “é a consequência indesejada da própria existência dos seres humanos como espécie”. Mais do que isso, é “o produto da totalidade das ações humanas ao longo do tempo. Todos os seres humanos que já viveram desempenharam um papel em nos tornar a espécie dominante neste planeta e, nesse sentido, todos os seres humanos, passados e presentes, contribuíram para o atual ciclo da mudança climática”. Por essa perspectiva, o produtor de café comum na Dominica contribuiu para o furacão Maria simplesmente por pertencer à espécie Homo sapiens. Assim como seus antepassados escravos trazidos para a ilha. Assim como o povo kalinago, que lá vivia em paz antes de os europeus chegarem à ilha em 1492.


"The Rising Tide" (A maré crescente), uma instalação de esculturas do artista britânico Jason DeCaires Taylor, no Rio Tâmisa, Londres, 2015.

Narrativa falha

É extremamente difícil enxergar os fundamentos científicos que podem existir em tal perspectiva; contudo, inúmeros intelectuais que abordaram o Antropoceno fizeram afirmações semelhantes. Para escolher apenas um outro caso, o historiador Dipesh Chakrabarty, talvez o mais influente intérprete do conceito nas ciências humanas e sociais, argumenta que, quando se trata da produção da mudança climática, “os pobres participam daquela história compartilhada da evolução humana, tanto quanto os ricos” (CHAKRABARTY; D. Climate and Capital: On Conjoined Histories, Critical Inquiry: The University of Chicago Press Journals, v. 41, n. 1, 2014).

Nessa visão, o furacão Maria foi mais um suicídio do que uma guerra-relâmpago (blitzkrieg). Foi um caso de “aqui se faz, aqui se paga”, sem nenhuma injustiça flagrante envolvida de forma especial. Das encostas desnudas da Dominica, a realidade, é claro, parece muito diferente. A narrativa do Antropoceno é falha porque distorce e ofusca aquela realidade – não por dizer que as ações humanas causaram a mudança climática, o que é um fato incontestável, mas por se deslocar daquela observação para a representação da espécie humana como protagonista unificado. É tudo menos isso.

Nos últimos milhares de anos, desde que as sociedades de classes existem, o Homo sapiens tem sido uma entidade profundamente fragmentada, e nunca mais do que neste planeta que vem se aquecendo rapidamente – onde os oito homens mais ricos do mundo têm tanta riqueza (US$ 426 bilhões) quanto a metade mais pobre da população mundial somada (US$ 409 bilhões), segundo a  Oxfam, de janeiro de 2017 (link em inglês). Sabe-se que a riqueza está estreitamente correlacionada com as emissões de CO2. É o sinal dos lucros da forma habitual de se fazer negócios e a melhor prova contra as suas consequências. Embebido em combustíveis fósseis, é o motor da tempestade.

Epidemia de plástico

Somos informados que a mudança climática é criada por uma massa anônima de milhões e bilhões de seres humanos, quando, como recentemente argumentou o geógrafo norte-americano Matt Huber, na realidade, é um segmento muito limitado da espécie que controla os meios de produção e toma as decisões mais importantes sobre o uso da energia. Esse segmento opera com um objetivo em vista – expandir ainda mais as suas riquezas. O processo é conhecido como acúmulo de capital e segue de forma implacável, sem considerar o destino dos dominiquenses ou os alarmes cada vez mais desesperados da ciência do clima.

Para citar apenas um exemplo, em dezembro de 2017, o jornal The Guardian noticiou que a produção de plástico nos Estados Unidos deverá aumentar em 40% na próxima década, uma vez que a ExxonMobil, a Shell e outras empresas de combustíveis fósseis têm usado a contínua expansão do gás de xisto para investir massivamente em novas fábricas de plástico. Elas prenderão a economia norte-americana e, por conseguinte, a economia global, ainda mais em sua dependência por produtos plásticos. Em algum momento, estes acabarão alcançando as praias de todo o mundo e, no que diz respeito aos combustíveis fósseis, seu calor encontrará novas ilhas para destruir. Da perspectiva do capital, esta é exatamente a coisa certa a se fazer: investir na produção e no consumo de combustíveis fósseis para gerar lucros. Esse é o processo que tem alimentado o aquecimento global desde o início.

A população da Dominica e seus muitos companheiros de infortúnio em todo o mundo, que devem se multiplicar a cada ano – a menos que comece agora mesmo um confronto direto com o capital proveniente dos combustíveis fósseis – nunca viveram no que se denomina Antropoceno, e suas ações não podem ser culpadas por causar danos ao planeta. Eles sofrem os golpes de uma era rotulada de forma mais apropriada como Capitaloceno. É uma forma de guerra estrutural e sistemática, mas nós podemos esperar que os eventos naturais súbitos de choque e temor se tornem mais frequentes nos próximos anos. Uma questão mais aberta é quando, ou se, uma reação começará. Culpar a espécie humana não fará isso acontecer.

(*) Dominica é um Estado insular situado no Caribe, na região das Pequenas Antilhas. Não confundir com a República Dominicana

Fotos:

Isaac Cordal

Jason DeCaires Taylor

Andreas Malm

The author of several books, including, most recently, The Progress of This Storm: Nature and Society in a Warming World (2018), Andreas Malm teaches human ecology at Lund University, Sweden.