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Grande Angular

Aprender a viver na era da IA

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Foto do artista francês Vincent Fournier, tirada em Barcelona (Espanha), em 2010, como parte da série “O Homem Máquina” (The Man Machine), que mostra “ficções especulativas”, onde criaturas artificiais interagem com humanos.

Aos três pilares básicos de qualquer sistema educacional – leitura, escrita e aritmética – devemos agora adicionar mais três: empatia, criatividade e pensamento crítico. Estas habilidades, geralmente adquiridas fora da escola, devem ser incluídas no currículo escolar ao passo que a Inteligência Artificial (IA) se torna parte de nossas sociedades.

Leslie Loble

Na Austrália, 300.000 crianças começam suas jornadas escolares neste ano, em 2018. Se graduando na escola em 2030, elas passarão a maior parte de suas vidas profissionais na segunda metade do século vinte e um – e algumas ainda poderão viver para ver o surgimento do século vinte e dois. A rapidez das mudanças criadas pelas tecnologias avançadas faz com que seja cada vez mais provável que estas crianças venham a viver e trabalhar em um mundo radicalmente diferente do nosso. Os sistemas educacionais devem se modificar prontamente para se antecipar e se ajustar a esta mudança, se desejam que as futuras gerações tenham sucesso. 

Nova Gales do Sul é o maior setor educacional da Austrália, com cerca de um milhão de crianças e jovens frequentando cerca de 3.000 escolas. Em todas as salas de aula, todos os dias, um professor instrui e guia estes estudantes em direção aos seus futuros. Mas, ao nível de um sistema, especialmente em tamanha escala, as mudanças podem se desenvolver lentamente, mesmo com a urgência clara e crescente que as novas tecnologias trazem .

É por isso que o Departamento de Educação de Nova Gales do Sul (NSW) icomeçou o Education for a Changing World, em 2016. Examinando os impactos estratégicos dos avanços tecnológicos, este amplo projeto pretende esclarecer e estimular reformas necessárias no currículo, ensino e avaliação, e orientar o sistema inteiro em direção a uma abordagem mais inovadora.

Desde que o projeto começou, o Departamento se comprometeu com líderes globais das esferas econômicas, tecnológicas e acadêmicas, e suas considerações levaram à publicação de Future Frontiers: Education for an AI World, em novembro de 2017. O livro explora o futuro da educação em um mundo com IA, e as habilidades necessárias para ter sucesso no século vinte e um. Alguns desses líderes considerados se juntaram a educadores, organizações não-governamentais (ONGs) e elaboradores de políticas em um simpósio internacional no fim de 2017, para discutir como utilizar novas tecnologias e ferramentas para ajudar professores e melhorar os resultados obtidos pelos estudantes. A infusão de novas ideias levou a um compromisso unificado de reforma.

Os novos pilares

Os três pilares – leitura, escrita e aritmética – são a fundação de todo o aprendizado, mas os estudantes de hoje precisam de habilidades fundamentais adicionais e habilidades não-cognitivas importantes, como por exemplo, auto eficiência. A rapidez e amplitude das mudanças tecnológicas pedem por um entendimento mais profundo dos conceitos, e uma grande dose de resiliência, adaptabilidade e flexibilidade para estudantes, professores e também para os sistemas educacionais.

As habilidades humanas serão mais importantes que nunca no novo mundo que está se formando diante de nossos olhos – e o pensamento crítico será uma das habilidades mais poderosas que os sistemas educacionais transmitirão aos estudantes.

Por enquanto, estas habilidades essenciais podem ser adquiridas através de atividades extracurriculares, onde aprendemos sobre cooperação, estabelecimento de metas e planejamento, por exemplo. Disciplina e espírito de equipe podem ser desenvolvidos através dos esportes, criatividade através do teatro, pensamento crítico através do debate, e empatia através da arrecadação de fundos para a Cruz Vermelha ou voluntariado em um grupo de jovens.

O desafio é como criar esta ampla variedade de oportunidades para todos os estudantes, como valorizá-las como experiências legítimas e integrá-las em nosso currículo, e como avaliar os estudantes nestes domínios – que anteriormente não eram considerados parte da educação escolar.

Uma coisa é certa – o futuro exigirá que crianças desenvolvam conexões umas com as outras e semeiem um senso de comunidade, cidadania e colaboração baseado na empatia, que alguns acreditam ser a competência-chave para o século XXI.

Competências interpessoais são crescentemente reconhecidas como componentes fundamentais para os sistemas educacionais ao redor do mundo. Organizações, incluindo a UNESCO e a OCDE, estão desenvolvendo estruturas, padrões e avaliações para competências intrapessoais, e conceitos como habilidades globais para apoiar uma maior colaboração intercultural. Na Austrália, um conjunto de capacidades gerais incluindo pensamento crítico e criativo e entendimento intercultural foi incluído no currículo nacional em 2009 – deste então, muitas jurisdições as adicionaram em seus próprios currículos. 

O projeto Education for a Changing World destacou a necessidade de fomentar práticas educacionais inovadoras que levarão a ganhos generalizados em todo o sistema. E já existem práticas inovadoras florescendo pela comunidade educacional, procurando motivar, engajar e desafiar estudantes, e aproveitar o potencial da tecnologia avançada de melhorar seus desempenhos. Algumas dessas práticas têm uma base de evidência maior que as outras, o que torna mais difícil distinguir quais são as mais efetivas.

IA na sala de aula

Tomando como lição as melhores práticas de inovação internacional e nacional, nos setores público e privado, o Departamento de Educação de Nova Gales do Sul está examinando como apoiar ainda mais os educadores a desenvolver e acelerar ideias inovadoras. O objetivo é estabelecer novas maneiras de criar métodos sustentáveis e escalonáveis para estender o aprendizado, as capacidades e as realizações de nossos estudantes.

A IA oferece um potencial significante dentro da educação, se usada com sabedoria, e se servir às necessidades dos educadores. Já existem sistemas baseados em IA que podem apoiar o ensino personalizado, libertando os professores para focar nas necessidades individuais dos estudantes e em liderança educacional. Estes sistemas poderão monitorar o engajamento e progresso dos estudantes, e poderão sugerir ajustes ao conteúdo.

É fundamental que os educadores estejam no comando com relação ao projeto e ao desenvolvimento de sistemas baseados em IA. Professores e líderes escolares devem fazer o papel crítico ao definir um propósito claro para a IA em sala de aula, e serem treinados para entender e utiliza-la de maneira eficaz. Estudantes também devem se envolver nas decisões sobre o uso destas tecnologias, e educados sobre as estruturas éticas que acompanham seu uso. Seus futuros dependerão das políticas e abordagens adotadas neste momento. 

Saiba mais

Projeto Education for a Changing World 

Foto: Vincent Fournier

Leslie Loble

Vice-secretária no Departamento de Educação de Nova Gales do Sul, Leslie Loble (Austrália), tem liderado a estratégia, reforma e inovação no maior e mais diverso setor de educação na Austrália por quase duas décadas. Foi premiada como uma das 100 Mulheres de Influência em 2013 pela Australian Financial Review/Westpac por seu impacto positivo nos assuntos públicos da Austrália e pelo reconhecimento de seu papel na reforma educacional.