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Nosso Convidado

"Filmar a realidade pode ser perturbador, mas amadurece"

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Malek Bensmaïl, 2016.

Três anos após a independência da Argélia em 1962 – após oito anos de guerra civil – o diretor italiano Gillo Pontecorvo filmou A Batalha de Argel. O filme é sobre um dos episódios mais sangrentos na guerra da Argélia, quando a Frente de Libertação Nacional (FLN), pró-independência da Argélia, chocou-se com as autoridades coloniais francesas em 1957.

Em 19 de junho de 1965, enquanto o filme estava sendo filmado, as tropas FLN do Coronel Houari Boumédiène entraram na Argélia. Tanques usados para as filmagens se misturavam com os tanques reais, e os apoiadores do Presidente Ahmed Ben Bella não enxergavam nada além de fogo. Como resultado, ele foi derrubado!

Meio século mais tarde, em 2017, Malek Bensmaïl examinou o papel histórico do clássico do estilo-reportagem em preto e branco de Pontecorvo em seu documentário, A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História. Mas este não é um “filme sobre um filme”, explica. É mais uma interpretação da história de um país – a revolução, o golpe, as mudanças de regime e a descolonização. Por quase 30 anos, o diretor argelino tem criado o que ele chama de “memória contemporânea” de seu país.

Malek Bensmaïl, entrevistado por Jasmina Šopova

 

Por que o sr. escolheu o documentário como forma de expressão?

Mais que a ficção, o documentário é capaz de combater mitos nacionais. Não para destruí-los, mas para colocá-los em seus lugares, para que eles não destruam a sociedade. Se você não filma sua própria realidade, como você poderá assistir a si mesmo? De onde viria a sua inspiração? De onde viriam os seus sonhos? Também, é preciso lembrar, o cinema nasceu do documentário – lembra-se dos irmãos Lumière? O documentário determina a imaginação coletiva. É a realidade que nutre a ficção e oferece um espelho para a sociedade. Eu sei que filmar a vida real pode ser perturbador: mas também sei que amadurece.

Nos anos 1990, quando estávamos no meio da “década negra” na Argélia, eu optei pela realidade. E continuo no mesmo caminho. Minha ideia é fazer um filme, a cada um ou dois anos, sobre pessoas, instituições e questões sociais importantes. Eu gostaria que esses filmes oferecessem um melhor entendimento sobre como um país é construído ao longo dos anos.

Minha intenção é criar uma memória contemporânea, ao mostrar este laboratório que é a Argélia – um país procurando sua identidade, com seus progressos, seus retrocessos e suas questões. Você não alcança a democracia em um estalar de dedos. Nem com armas!

 

Um dos pilares da democracia, a liberdade de imprensa, é o assunto do seu filme sobre o jornal independente argelino, El Watan, lançado em 2015. Por que o sr. intitulou Checks and Balances (Contra poderes)?

Liberdade de imprensa é uma condição da democracia cujo direito muitos jornalistas pagaram com suas vidas. A guerra, que estourou em 1991, deixou 200 mil mortos e 100 mil desaparecidos. Cerca de 120 jornalistas argelinos foram assassinados por extremistas islâmicos entre 1993 e 1998. Mas isso ainda não significa que a liberdade de imprensa represente uma força real de oposição em meu país atualmente..

Para este filme, eu decidi dar um olhar “oblíquo”, seguindo um time de jornalistas em seu trabalho. O que me interessou não foi tanto a imprensa como uma força contrária, mas as forças contrárias representadas por indivíduos.

Na Argélia, a noção de indivíduo ainda não se desenvolveu completamente. Estamos trancados em uma ideia de comunidade. Nós temos uma nação para defender, um país para defender, um Deus para defender, um idioma para defender. Sempre há “aquela” figura, que é onipresente e onipotente, e que deveria incluir a nós todos – quando na realidade existem celebridades, intelectuais, jornalistas, juízes, estudantes etc., que vivem em um espaço multicultural e multilíngue, que pensam de maneira diferente e constituem forças contrárias necessárias para uma democracia.

 

De que vale um jornal independente se ele não possui nenhum impacto na sociedade?

Mesmo se ele não constitui uma força contrária real, a imprensa livre consegue condenar atos de violência invisíveis, dos quais ninguém fala. A Argélia é atualmente vista como um país calmo, protegido do terrorismo, mas na realidade não está imune à humilhação e à manipulação.

El Watan não é apenas o único jornal fazendo seu trabalho. Existem diversos outros, incluindo Le Quotidien d'Oran, El Khabar, Liberté e, até certo ponto, Le Soir d'Algérie, que também estão envolvidos na resistência e na luta. Eles não são jornais de oposição. O objetivo deles é oferecer informações precisas de fontes equilibradas. Além disso, a maioria deles tem websites gratuitos e acessíveis a todas as pessoas, incluindo da diáspora.

 

O que o El Watan está fazendo para preservar sua independência? Como ele assegura sua sobrevivência?

Com a venda de jornais – ele tem uma tiragem de 140 mil cópias, que são vendidas em 20 bancas argelinas (por cerca de €0.20) cada – e por meio de propaganda. O jornal, que foi privado da receita de propaganda do estado desde 1993, tem investido em uma rede de publicidade e de distribuição, e em uma gráfica independente que divide com o El Khabar. O jornal também se voltou para o setor privado da publicidade, o que permite o pagamento de 100 jornalistas e correspondentes que formam a sua redação.

Dito isso, o jornal passou por pelo menos seis interrupções em suas publicações, e esteve envolvido em cerca de 200 processos legais, o que o tornaram vulnerável financeiramente. Eu fiquei surpreso ao ouvir que Omar Belhouchet, o fundador e diretor do jornal, acredita que estes casos sejam importantes para o processo democrático. Eu imagino que tenham sido experiências dolorosas, mas ele sentiu que permitiram que ele não apenas defendesse os jornalistas e cartunistas, mas também defendesse a noção de liberdade de expressão, que está escrita na Constituição.

Estes julgamentos dão a ele (Belhouchet) a oportunidade de explicar para o tribunal o que é uma caricatura, o que é humor, o que é uma crônica, o que é uma investigação, e onde estão as restrições para a sociedade. Ele, na verdade, utiliza esses casos para educar jovens magistrados sobre a liberdade de imprensa.


Cena do filme "La Chine est encore loin", de Malek Bensmaïl, 2008.

A educação tem papel central no seu documentário de 2008, La Chine est encore loin (A China ainda está distante, em tradução livre). Por que o sr. faz uma referência à China quando fala sobre uma sala de aula em Tiffelfel, uma pequena aldeia nas montanhas Aurès, onde a guerra da Argélia começou, em novembro de 1954?

O título faz referência a uma frase do Profeta Maomé: “Busquem conhecimento, indo até à China se for preciso”. A China é, no entanto, uma terra simbólica, a terra do conhecimento, que apenas poderá ser alcançada com um esforço considerável. Uma terra que ainda está distante, vista da Argélia..

Logo antes de fazer esse filme, eu filmei um documentário sobre a loucura, Aliénations (2004; Alienações em tradução livre). Eu passei três meses em um hospital psiquiátrico e encontrei diversos casos de pessoas com delírios político-religiosos. Eu me perguntava qual a origem dessas patologias. Um psiquiatra me respondeu: “é a sociedade”. Isso me encorajou a procurar saber como os jovens estavam sendo ensinados, que ideias estavam sendo passadas a eles na escola. Então eu fui até à escola na aldeia onde a guerra da Argélia começou.

Era uma guerra muito violenta, que durou quase oito anos. Graças a sua vitória, a Argélia se tornou um mito, e sucessivos regimes trabalharam bastante para consolidar esse mito. Eu não estou dizendo que a criação de um senso de orgulho nacional entre as pessoas não seja algo bom, que eles valorizem o seu heroísmo. Mas eu não concordo quando isto é feito de uma maneira que não condiz com o dia a dia local. Eu queria filmar a Argélia que trabalha e que luta todos os dias por trás desse mito.

O filme mostra o abismo que separa o mito da realidade social. No fim do dia, percebemos que o que estamos colocando na mente das crianças é o ódio ao outro. O filme também mostra que a educação sobre o Alcorão está muito distante das palavras do Profeta. O Islamismo Político causou tanto prejuízo que ainda está sendo sentido hoje, especialmente nas áreas rurais.

 

É esta a razão pela qual apenas uma mulher – Rachida, a faxineira da escola – tem voz no filme?

Rachida é incrível. Ela me deu uma lição maravilhosa sobre liberdade! Ela vem de outra aldeia no sul da Argélia, de onde ela precisou escapar porque era divorciada e, portanto, considerada uma prostituta.

Era impossível entrevistar outras mulheres, embora nesta região as mulheres já tenham sido conhecidas pelo gerenciamento da economia – a fabricação de tapetes e a agricultura estavam em suas mãos. Hoje elas ficam escondidas atrás das paredes de suas casas. No interior, elas dificilmente saem de suas casas, mesmo com véus. São os homens que vão aos mercados. Ou seja, não são ouvidas! Os anos de Islamismo e conservadorismo destruíram o papel social tradicional das mulheres, junto com todos os ganhos que elas haviam conquistado com sua emancipação. Durante as filmagens, elas nos mandavam bandejas de comidas, bolos e cafés por intermédio das crianças, mas nós não víamos nenhuma mulher.

Saiba mais:

Visite o site de Malek Bensmaïl

Entrevista sobre The Battle of Algiers

Entrevista sobre La Chine est encore loin 

Assista a Malek Bensmaïl in conversation with Jean-Philippe Tessé

Malek Bensmaïl

O diretor de cinema argelino Malek Bensmaïl tem feito documentários desde 1990, enquanto seu país passava pela “década de sangue”. Seus filmes foram aclamados pela crítica e receberam diversos prêmios em festivais internacionais. Seus filmes são mostrados em cinemas e transmitidos por canais de televisão no mundo todo, especialmente na Europa: em canais como Arte (França-Alemanha), TV Cultura (Brasil), RTBF (Bélgica), TV3 (Espanha), YLE (Finlândia), France TV, Canal +, TV5 Monde (França), BBC, Channel 4 (Reino Unido), RTSI e RTSR (Suíça). Em 2010, ele foi laureado pela Villa Kujoyama (Quioto, Japão). Uma retrospectiva de seu trabalho foi mostrada nas principais universidades dos Estados Unidos, no outono de 2018.