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Grande Angular

IA e literatura: seria mesmo para o melhor?

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Scene from Poetic_AI, called the world’s biggest AI exhibit, created entirely by an algorithm.

Karl Schroeder dedica seu tempo a ler, estudar, observar e imaginar histórias futurísticas. Renomado internacionalmente como um dos astros da ficção científica, seus livros inspiraram especialistas em novas tecnologias e inteligência artificial (IA). Além disso, ele coloca sua imaginação a serviço de empresas e governos, ajudando-os a prever suas transformações tecnológicas, econômicas e sociais. Para o romancista e ensaísta canadense, a Inteligência Artificial é uma revolução mais cultural que tecnológica – e isso demanda uma maior reflexão com relação às questões éticas, governamentais e legislativas.

Karl Schroeder, entrevistado por Marie Christine Pinault Desmoulins (UNESCO)

Além de sua paixão por inovações digitais e tecnológicas, quais são suas fontes de inspiração?

Eu dedico uma grande parte do meu tempo à leitura de grandes filósofos. Isto me permite ter uma visão global, a considerar as conexões possíveis entre as tecnologias e os movimentos sociais. Mas, deixe-me destacar, eu dou exatamente a mesma atenção ao enredo, para que meus livros sejam divertidos!

Ao mesmo tempo, a internet é uma fonte infinita de informação e distração. Qualquer navegação na rede é uma oportunidade de novas descobertas e pode me estimular a repensar ou mesmo mudar radicalmente tudo que acabei de escrever. A internet faz minha pesquisa mais fácil e eu retiro apenas o melhor dela.

Você prevê que a IA poderá um dia substituir você como escritor?

Neste momento, eu compararia a contribuição da Inteligência Artificial em minha área a uma função de aleatorização, comparável a deitar um baralho de cartas, cada carta capaz de definir um personagem, uma cena, etc. Por exemplo, um deles poderia ser o “rei dos caras maus, ao lado de uma torre”, e a partir daí eu poderia desenvolver um personagem, um enredo.

Eu acredito que a criatividade poderia eventualmente acontecer fora dos seres humanos. Então posso imaginar que a IA poderá criar um livro digno deste nome, mas certamente não na forma atual. Estes seriam tipos diferentes de máquinas, um tipo que ainda não elaboramos. Os computadores de hoje não produzem sentido e a intervenção humana é sempre necessária no processo criativo, mesmo que os dispositivos tecnológicos estejam se tornando mais refinados e se aproximando das capacidades humanas.

Em meu romance Lady of Mazes, há uma cena onde a IA está enlouquecendo e cria uma espécie de bomba criativa que abastece milhões e milhões de romances de qualidade excepcional, literalmente tantos que as pessoas não poderiam lê-los em todo seu tempo de vida coletiva somados. E então, o que acontece com os humanos? Bem, eles se adaptam e continuam com suas próprias criações.

Imagine se esta bomba criativa explodisse hoje. Por que isso me impediria de escrever novos livros? Por que eu deveria pensar “eu contra um milhão de livros” e não “eu e um milhão de livros?”. Eu considero a criatividade – qualquer que seja sua origem – uma soma e não uma eliminação para a nossa própria existência.

De fato, a noção de substituição é inerente ao conceito de valor. Nós poderíamos considerar que tudo pode ser substituído, de acordo com um certo valor. Como escritor, eu poderia ser substituído por um computador que possui mais sucesso comercial que eu. Mas esse raciocínio só é válido se o sucesso comercial prevalecer neste sistema de valores.

Isso significa que você não tem preocupações com a IA?

Determinar se a IA é uma ameaça ou um benefício é uma responsabilidade inteiramente humana. Há diversas ideias simplistas sobre IA, como funciona, e as razões pelas quais poderia ser uma ameaça à humanidade. Poderia até ser dito que há uma ansiedade exagerada, focada na perda de controle sobre as máquinas. No estágio que estamos hoje, este não é um raciocínio eficaz.

Por outro lado, é essencial escolher a direção que a IA tomará e decidir como será usada. Se decidirmos investir em supermáquinas para batalhas econômicas ou políticas, nós estamos tomando o caminho da construção de um ambiente hostil, claro. A sociedade deve fazer as decisões corretas para a implementação da IA.

Se um dia os produtos da IA se tornarem independentes de nós, serão como crianças que nos deixam quando o tempo chega, para levarem suas próprias vidas! Nossa responsabilidade como pais é nutri-las e inspirar valores positivos. Este é o alicerce da discussão.

Isto está relacionado à questão da ética?

Sim, a ficção científica tem pensado sobre isso há um século! Os decisores políticos e a sociedade estão apenas começando a pensar sobre estas questões. É por não estarmos examinando seriamente o assunto que recorremos a especulações toda vez que uma grande inovação tecnológica é apresentada. E mesmo assim, a solução é simples – devemos decidir implementar uma nova tecnologia apenas quando tivermos identificado seu impacto social, determinado seu uso e regulamentado da maneira correta.

Eu fiz deste problema uma das mensagens em Lady of Mazes – para encorajar o planejamento da implementação de qualquer inovação tecnológica, para antecipar melhor as mudanças sociais.

Qual será a mensagem de seu próximo livro?

Ele sem dúvida tratará do futuro da política e dos processos de tomada de decisão, e também dos meios tecnológicos que poderiam levar-nos a outro nível de civilização.

Parece piada, mas estou pensando em escrevê-lo com uma caneta! Será um experimento, assim como aqueles que as ferramentas digitais nos oferecem. Nós precisamos ter o poder de distinguir a escrita dos meios de escrita. A tecnologia é apenas um meio, e deverá ser colocada de volta em seu lugar apropriado. Não há nada que precisemos renunciar sobre o que somos ou o que queremos ser – nós apenas necessitamos nos preparar coletivamente.

Karl Schroeder

A science fiction novelist, essayist and futurist, Karl Schroeder (Canada) is the author of  ten novels, translated into as many languages. They include Ventus (2000), Permanence (2002), Lady of Mazes (2005), Crisis in Zefra (2005) and Lockstep (2014). He received the Netexplo Talent Prize at UNESCO in February 2018