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Assuntos Atuais

Seres humanos reconciliados com a natureza

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O diretor francês Luc Jaquet, em uma viagem de prospecção em Galápagos com um time da UNESCO em março de 2018.

Em março de 2018, o diretor de cinema francês Luc Jacquet, que venceu um Oscar por seu documentário A Marcha dos Pinguins (2005), viajou para Galápagos com a fotógrafa e diretora de cinema francesa Sarah Del Ben em uma viagem de prospecção para um futuro projeto de filme. Eles foram acompanhados pelos especialistas do programa O Homem e a Biosfera da UNESCO (MAB). Eis aqui o seu relatório.

Luc Jacquet

Nesta manhã, enquanto caminhava pelas ruas de Santa Cruz, avistei um senhor lendo seu jornal. Um leão-marinho lhe fazia companhia casualmente, sentado no mesmo banco. Um pouco mais a frente, homens recém-chegados de suas pescarias vendiam peixes frescos que seriam consumidos no mesmo dia. Eu continuei minha caminhada, passando por transeuntes, turistas e iguanas. Andando um pouco além das ruas, eu podia ver as crianças brincando perto de tartarugas de cerca de um século de idade, que estavam pastando tranquilamente na grama.

Eu viajei através do mundo, mas nunca havia encontrado antes tal proximidade entre espécies diferentes, à exceção de, talvez, na Antártica. Estes locais, tão distantes de tudo, são afinal os últimos santuários de convivência harmoniosa entre humanos e natureza. E ainda, em ambos os casos, as condições de vida são extremas.

Nas terras áridas de Galápagos, castigadas pelo sol e hostis à vida, a atividade humana e a biodiversidade não estão em conflito. Temos a impressão de estar em um laboratório em tamanho real, testemunhando a demonstração brilhante de que é possível que humanos e animais vivam juntos – desde que coloquemos em prática políticas de gestão de recursos sólidas que permitam a sobrevivência dos ecossistemas. O arquipélago deveria servir de modelo para o restante do mundo, sobre como transpor a lacuna que criamos entre nós e os outros seres vivos.

Participar da conservação dos ecossistemas é uma tarefa sempre complicada. Mas, acima de tudo, devemos conhece-los e amá-los. Se cada um de nós fizer isso, se utilizarmos nossos talentos e conhecimentos, estou convencido de que nossos esforços coletivos darão frutos. Eu acredito profundamente que esta energia coletiva permitirá que caminhemos em direção a um modo de vida no qual não seremos mais colonizadores, e sim gerenciadores – em direção a uma sociedade que reconhece o valor do planeta que habita.

De minha parte, eu tenho o privilégio de possuir o conhecimento que me permite fazer o modesto papel de mediador entre a ciência e o público geral. Eu posso criar imagens que trazem mensagens com uma efetividade provada atualmente. E eu coloco este conhecimento à serviço do planeta. É por isso que desejo apoiar o programa MAB da UNESCO – suas aspirações estão em conformidade com as minhas. Sua filosofia é baseada em uma ideia que eu apoio completamente, a ideia da coexistência.

O cinema é uma ferramenta incrível para despertar a conscientização. Ele utiliza a linguagem da emoção e da metáfora. Longe de deixar-se levar pela moralização ou pelo discurso da culpabilização – que foi demonstrado ser relativamente ineficaz – um filme age tanto nos corações quanto nas mentes da audiência. Desta forma, ele incita a audiência a se apropriar das coisas da natureza – por conta de sua beleza, por conta de seu interesse ou simplesmente por curiosidade.

As mudanças climáticas e a perda da biodiversidade são questões complexas. O cinema pode fazê-las acessíveis ao público, traduzindo em histórias que são tão simples quanto universais em sua extensão. É assim que ele abre a primeira porta que nos levará ao caminho da conscientização.

E quando estamos neste caminho, entendemos a ilusão que é imaginar por um momento sequer – e no entanto, as últimas quatro ou cinco gerações de seres humanos tem feito isso – que nós poderíamos viver isolados da natureza. Nós viemos da natureza e precisamos da natureza para atos básicos como respirar, beber ou comer. Mas nós também precisamos da natureza para podermos sonhar.

Este artigo marca a 30ª sessão do Concelho MAB, em Palembang, Indonésia (Sumatra do Sul), 23-28 de julho de 2018.

Leia mais:

Galápagos: where the inhabitants take charge

Luc Jacquet

O diretor e escritor francês, Luc Jacquet, é conhecido pelo documentário March of the Penguins (Marcha dos Pinguins, 2005), que recebeu o Prêmio da Academia como melhor documentário de 2006. Ele já fez cerca de 30 filmes, a maioria são documentários.