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Nowruz: as sementes de um novo dia

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Celebração do Noruz no Irã.

Do culto ao deus da vegetação Osíris no Egito Antigo às celebrações do solstício de verão na Sardenha, na Itália, ao banquete maronita de Eid el Burbara, no Líbano, e às cerimônias do Piramalai Kallar em Tâmil Nadu, na Índia, o símbolo da semente germinada desempenha um papel central em muitos rituais. Brotos de trigo, cevada ou lentilha também estão no cerne do Noruz – o Ano Novo dos povos que fizeram parte do Império Persa –, celebrado a cada primavera por cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. No entanto, por que os brotos são jogados na água?

Salvatore D’Onofrio

Nos sistemas de crença de todos os povos do mundo, à medida que o tempo completa seu ciclo anual, há um grande risco de que a humanidade perecerá. Eles acreditam que a realização de rituais lhes permitirá ir além deste ciclo. Os festivais de Ano Novo, muitas vezes celebrados para inaugurar a primavera, anunciam o renascimento da natureza.

O Noruz, que literalmente significa “novo dia”, é um desses rituais. Suas origens, que remontam a pelo menos 2 mil anos, não são claras, mas a tradição está viva e bem, e é celebrada em todos os países que, em algum momento, fizeram parte do Império Persa.

No Irã, o centro da Pérsia Antiga, os preparativos começam duas ou três semanas antes do Noruz. As mulheres começam a “sacudir” suas casas – realizando uma grande limpeza de primavera. Na terça-feira que antecede o festival, os homens organizam jogos que incluem saltar sobre fogueiras. Enquanto isso, as crianças usam máscaras e vão de casa em casa em pequenos grupos, batendo nas portas e esperando receber bolos ou moedas. Essa tradição se assemelha ao Halloween, uma festividade agora associada ao Dia de Todos os Santos nos mundos celta e de língua inglesa; e à Koliada, um festival do solstício de inverno eslavo que, com o decorrer do tempo, se tornou parte das celebrações do Natal. 

Voltando ao Irã: no alvorecer do dia do equinócio vernal (primeiro dia da primavera), o início das festividades é anunciado pelos sons do tambor de Haji Firouz, um tipo de bobo da corte do rei com o rosto pintado em cor preta. Todas as casas – incluindo os lares iranianos na diáspora – montam uma mesa com haft sin, ou sete itens, todos começando com a letra s (de sin). Eles são o sabzeh (brotos de trigo, aveia, lentilhas e outras sementes), sir (alho), sib (maçã), summak (sumagre), senjed (o fruto da jujubeira), serkeh (vinagre) e samanu (um pudim de trigo feito pelo cozimento lento de brotos de trigo moídos).

Algumas vezes, são adicionados um espelho (aine), bolos ou moedas. O Alcorão também pode ser colocado sobre a mesa – tendo substituído o Avesta, o livro sagrado dos zoroastristas –, assim como alguma poesia. Por exemplo, a obra Divã, do poeta místico persa Hafez, famoso por memorizar o Alcorão, é muitas vezes usado para adivinhação.

A refeição da família inclui peixe e arroz, mas a peça central da mesa sempre é o sabzeh. As sementes foram cultivadas pelas mulheres no início das festividades, em pratos dentro da casa, e são constantemente regadas para que os jovens brotos verdes estejam prontos para o Noruz.

Por que esses brotos?

As origens do ritual dos brotos são difíceis de serem determinadas. As referências mais antigas remetem aos Canteiros Germinadores de Osíris do Egito ptolemaico – uma tradição na qual o solo era moldado na forma de estatuetas, representando o deus dos mortos e a ressureição à vida eterna, e colocados em túmulos em uma posição reclinada. Os tijolos de cerâmica, feitos de terra amassada com água e grãos de cevada, também eram colocados em túmulos em uma posição reclinada.

Na Grécia Antiga, no século V a.C., sementes de especiarias, milho e grãos eram plantadas em recipientes de terracota ou em cestos. Chamados de Jardins de Adônis, as sementes eram germinadas para honrar o amante mortal da deusa do amor, Afrodite, durante o festival de Adônis, realizado todos os anos em meados de julho.

Em contrapartida, não há menção ao ritual de brotos no Avesta, ou nos escritos persas sobre o Noruz. Tampouco os brotos são parte dos rituais observados pelos parses, os seguidores da religião zoroastriana que fugiram da Pérsia em sucessivas ondas rumo à Índia entre os séculos VII e X, após as conquistas árabes de sua região.

Ainda assim, o costume das sementes germinadas perdura, como peça central da mesa haft sin, em torno da qual cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo se reúnem a cada primavera para celebrar o Noruz.

A tradição dos brotos pode ter se espalhado do sul da Índia, onde eles ainda são usados em cerimônias. Segundo o etnologista francês Louis Dumont, as mulheres que pertencem à comunidade Piramalai Kallar, em Tâmil Nadu, e querem cumprir seus votos, equilibram potes sobre suas cabeças – cheios de vários itens, incluindo brotos obtidos pela “germinação de sete ou nove sementes em um recipiente mantido no escuro por uma semana”.

Na tradição judaico-cristã

Na Europa, também, os novos brotos são uma parte central de vários festivais. Na Provença, na França, em 4 de dezembro, Dia de Santa Bárbara, o costume é germinar grãos de trigo da colheita anterior em três xícaras e colocá-las sobre a mesa da “grande ceia” no dia 24. Eles são então colocados no berço da cena da Natividade. A mesma tradição existe no Líbano entre os cristãos maronitas de etnia árabe, e na Sicília, na Itália, entre os habitantes da comuna de Castelbuono, em Palermo.

No dia 19 de março, os sicilianos também decoram a Mesa de São José com brotos, juntamente com até 101 iguarias. Isso é para celebrar tanto as virtudes da pobreza, representadas pelo santo, quanto as da riqueza, representadas pelo trigo – particularmente pelo pão, assado para a ocasião com o uso de receitas elaboradas.

No sul da Itália, na Quinta-Feira Santa, antes da Páscoa, os brotos são colocados sobre o altar no oratório, onde, segundo a liturgia católica, a Eucaristia é mantida. Por sua vez, a comunidade judaica em Roma mantém um costume ritual de brotos que remonta à Idade Média, durante os festivais de Rosh Hashaná e do Yom Kipur.

Nossa viagem europeia termina em 21 de junho, o solstício de verão, na pequena cidade de Bari Sardo, na Sardenha, Itália. Aqui, podemos testemunhar uma procissão de mulheres carregando sobre suas cabeças nenniri, ou brotos, em recipientes cobertos por uma impressionante estrutura de bastões, decorada com pães delicadamente moldados e frutas da estação. As mulheres caminham pelas ruas até o mar, onde jogam seus nenniri .

O 13º dia

No sul da Índia, também, as mulheres Kallar formam uma procissão, carregando brotos sobre suas cabeças. Elas terminam sua jornada cerimonial dançando ao redor dos brotos, antes de jogá-los na água.

Na Grécia Antiga, os Jardins de Adônis também eram entregues à água, em fontes ou no mar, após serem carregados por terraços – como os iranianos zoroastristas ainda fazem atualmente em Yazd e em outras partes do Irã.

Ainda no Irã, no 13º dia após o Noruz, todos passam o dia ao ar livre – comendo, brincando, cantando e fazendo o ritual final: jogar os brotos em água corrente. No entanto, isso não ocorre antes que as meninas tenham trançado alguns fios dos brotos, desejando encontrar um marido no ano seguinte.

O Noruz é uma daquelas celebrações que reúnem sociedades distantes umas das outras, tanto no espaço como no tempo – o retorno periódico da vegetação é visto como um símbolo de um novo começo da vida. No entanto, enquanto sua germinação simboliza uma renovação, as sementes também carregam dentro de si todos os problemas do ano que se encerra. Essa natureza ambivalente dos brotos faz com que seja necessário livrar-se deles, deixando que as águas levem os nossos males para longe de nós.

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Nauryz, Navruz, Nawrouz, Nevruz, Nooruz, Noruz, Novruz, Nowrouz, Nowruz! Tantas formas de se escrever a mesma palavra para este festival de Ano Novo e primavera celebrado principalmente nos seguintes países: Afeganistão, Azerbaijão, Cazaquistão, Índia, Irã, Iraque, Paquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Turquia e Uzbequistão. Em 2009, o festival foi inscrito na Lista Representativa da UNESCO do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, antes que essa inscrição fosse estendida a novos países em 2016. Desde 2010, 21 de março é celebrado como o Dia Internacional do Noruz.

Salvatore D’Onofrio

O antropólogo italiano, Salvatore d’Onofrio é professor na Universidade de Palermo e membro do Laboratório de Antropologia Social do Collège de France, onde coordena a coleção Cahiers d’anthropologie sociale e faz parte do grupo de trabalho Arquivos do Ano Novo em Paris. Ele é o autor de Le matin des dieus: du Norouz persan aux Pâques chrétiennes (A manhã dos deuses: do Noruz persa à Páscoa cristã, em tradução livre, 2018).