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Grande Angular

Eusebio Leal: Havana de mis amores

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Inundações incomuns causadas pela mudança climática ameaçam a Malecón, a famosa avenida litorânea de Havana.

Falar de Havana é falar de Eusebio Leal Spengler. Que outra cidade tem seu próprio historiador pessoal? Na véspera do 500° aniversário da fundação da capital cubana, o Historiador da Cidade de Havana – encarregado da restauração do centro histórico da cidade por mais de 30 anos – nos leva a uma jornada por suas ruas e monumentos, nos mostrando sua força, sua beleza... e seus males.

Entrevista por Lucía Iglesias Kuntz, UNESCO

Este ano, Havana celebra cinco séculos de existência. Como anda a saúde da cidade?

Se eu fosse me colocar no lugar da cidade, acredito que os males sentidos são aqueles quando se vive por muito tempo. Cinco séculos é pouco tempo em comparação com cidades antigas como Atenas, na Grécia, ou Istambul, na Turquia. No entanto, é muito para nós em nossas Américas – com exceção das grandes cidades pré-hispânicas como Cusco, a cidade inca do Peru, a Tenochtitlán asteca, no México, ou as cidades maias da América Central. Havana foi parte da nova onda que começou com a conquista e colonização espanhola no início do século XVI. As cidades cubanas foram fundadas imediatamente depois das cidades de Santo Domingo, La Vega, San Pedro de Macorís e Santiago de los Caballeros, na República Dominicana.

Acredito que essas cidades atingiram uma antiguidade nobre, e também mostram as dores e as mazelas de todos os momentos históricos pelos quais passaram. Em nosso caso, é fundamentalmente a nova era que teve início há 60 anos com a vitória da Revolução – a resistência do povo cubano, da qual Havana tem sido um emblema e um símbolo.

TO centro histórico, Havana Antiga, está inscrito na Lista do Patrimônio Mundial desde 1982 por seu “valor universal excepcional”, que qualquer visitante pode apreciar. No entanto, qual é, em seu ponto de vista, o valor de Havana?

A gama de valores é bastante ampla. Há o valor simbólico – é a capital da nação, o centro das decisões. Mas, ao mesmo tempo, também é muito representativa de todos os valores culturais, intelectuais, políticos, históricos e sociais do povo cubano. É também um catálogo da mais bela e deslumbrante arquitetura que a ilha já produziu, com características que também podem ser encontradas em Camagüey, Santiago de Cuba, ou Trinidad.

A arquitetura mourisca, por exemplo, que foi influenciada pela tradição hispânico-islâmica, é muito característica do centro histórico. Então, há também a arquitetura barroca, tímida, mas apaixonada da Catedral de Havana – que é mais como um estado de espírito, um tipo de sentimento ou atmosfera que o escritor cubano, Alejo Carpentier, descreveu tão vividamente em seu grande romance, El siglo de las luces (Explosão em uma Catedral, 1962).

Há também a cidade neoclássica, com o El Templete, o monumento à fundação de Havana. Trata-se de um modelo em pequena escala, que foi reproduzido com grande originalidade em outras cidades cubanas, como Matanzas e Cienfuegos.

E então, há a cidade eclética em Centro Habana, que é tão impressionante – repleta de gárgulas, atlantes, figuras extraordinárias, criaturas imaginárias. Ali se encontram subversivamente introduzidos o Art Nouveau no Palácio Cueto, na Praça Vieja e, também, o considerável esplendor da Art Déco, como observado no edifício Emilio Bacardí, tornando o diálogo arquitetônico ainda mais intenso.

Por fim, há a Havana da modernidade, que atinge o ápice de seu esplendor com a obra do arquiteto vienense Richard Neutra – a Casa de Schulthess, uma das mais belas casas do bairro residencial onde a Quinta Avenida nos leva. 

Havana é uma cidade viva, de sabedoria e de memória. Nessa metrópole animada, encontramos a acrópole do conhecimento que é o belo campus universitário – e o grande cemitério monumental, a necrópole, igualmente bela.

O sr. poderia nos dizer em que consistirão as celebrações de novembro de 2019?

O governo da cidade desenvolveu um extenso projeto de comemoração. O plano que elaboramos no Escritório do Historiador da Cidade de Havana, que projetamos especificamente para a zona histórica, está harmoniosamente incorporado a este projeto. Nossa tarefa é promover a ideia de preservar a memória da cidade, não apenas quando se trata de celebrar seu quinto centenário, mas também no cotidiano. Dediquei mais de três décadas a isso, e tenho que confessar que algumas vezes parecia que eu estava pregando essa causa no deserto.

Atualmente, desenvolvemos uma série de eventos, programas de rádio e de televisão, e a publicação de várias obras diferentes. Continuamos também a trabalhar simultaneamente na restauração dos símbolos monumentais da cidade – o principal exemplo disso será a conclusão das grandes obras no El Capitolio [edifício do capitólio nacional], o Castillo de Atarés e outros edifícios icônicos no coração de Havana. Nos lembraremos e celebraremos não apenas a história do ato da fundação da cidade, mas também sua história e cultura.

Gostaria de enfatizar que a cultura é a palavra chave em nosso grande plano para a reabilitação e a restauração da Havana Antiga. Qualquer projeto de desenvolvimento que ignora a cultura, leva apenas à decadência.

Por outro lado, o fator humano é igualmente importante. Gostaria de garantir que essas comemorações se convertam em uma paixão popular. Se não tocarem os corações das pessoas, tudo o que teremos feito são alguns discursos oficiais, movido algumas pedras e publicado alguns artigos.

O sr. diria que o patrimônio cultural tem mais a ver com a vida cotidiana, e não se trata apenas de museus?

É claro que acredito que os museus são essenciais para a história, a memória e a cultura. O Museo de la Ciudad [Museu da Cidade] é de vital importância para toda a nação, e não apenas para o povo de Havana. No entanto, também lutei contra a musealização e defendi a causa de uma cidade viva.

Um dos desafios que as cidades do Patrimônio Mundial enfrentam é a dificuldade de conciliar o turismo – algumas vezes em grande escala – e a preservação dos valores patrimoniais. Havana teve que enfrentar essas contradições?

Precisamos garantir que Havana não desapareça sob uma onda de turistas. Mas, ao mesmo tempo, acredito que o turismo – uma atividade necessária e um importante fator econômico – não deve ser demonizado. No caso de Cuba, dado seu isolamento, é também uma oportunidade para iniciar um diálogo direto com visitantes de todo o mundo. Isso é algo maravilhoso.

Uma vez terminada a reabilitação, são muitos edifícios na Havana Antiga que permanecem habitados.

Em muitos casos, os edifícios que estavam em ruínas e que restauramos eram habitados por famílias muito pobres. Este ainda é o caso para muitos deles. A resposta foi oferecer abrigo seguro e digno para milhares de pessoas, oferecer educação para os jovens e criar empregos seguros para os adultos. Tentamos implementar o que a UNESCO definiu, na época, como “um projeto único”, algo diferente. Único não significa melhor. Não afirmamos ter feito melhor do que outras partes do mundo. Pelo contrário, foi feito de acordo com a nossa própria experiência. Em outras palavras, apesar dos contratempos e erros que sofremos na busca por um modelo de reabilitação nós finalmente o encontramos.

O sr. também fez um grande esforço para a restauração da Malecón, a emblemática avenida de Havana que se estende ao longo da orla. O sr. a definiu como o “sorriso de Havana”.

Devo confessar que quase perdi a batalha contra o mar, uma batalha que apenas podia ser travada por Netuno com seu tridente. Não posso esquecer as imagens das ondas devastadoras se chocando contra o Castillo del Morro, que tem estado em frente ao mar por séculos. Estas são visões dantescas que se repetem em cada fase de um ciclone.

O tornado que nos atingiu recentemente, durante a noite entre 27 e 28 de janeiro [2019], causando a morte de várias pessoas e ferindo cerca de 200, nos lembra que chegou a hora de entender que a mudança climática é uma ameaça oculta à silhueta elegante da Malecón, que sempre será aquele sorriso lindo que Havana dá ao mar, e que temos o dever de proteger.

Perdemos a batalha contra o mar, mas precisamos vencer nossa luta contra a mudança climática. Grandes desafios e novas aventuras nos aguardam.

O sr. nunca se cansa de trabalhar por Havana?

É verdade que tudo sempre me levou à Havana. Realmente foram muitos anos de trabalho, trabalho árduo. Eu não me arrependo. Se houvesse outra vida além da que conhecemos aqui na Terra, minha alma vagaria eternamente por Havana. Tem sido o maior dos meus amores, a melhor das minhas paixões, e o maior dos meus desafios. E realmente não sei porque sempre misteriosamente volto a ela, na luz e no silêncio, na vida e nos sonhos.

Foto: Benjamin Norman – fotógrafo

Saiba mais

Leia nosso artigo 'Enchanted seashell': a portrait of Old Havana, O Correio da UNESCO, julhho de 1984.

Eusebio Leal

Historiador, autor e pesquisador cubano, Eusebio Leal Spengler é o historiador da Cidade de Havana, e o diretor do Grande Plano para a reabilitação e a restauração de seu centro histórico. Suas obras incluem Patria Amada, Regresar en el tempo, La luz sobre el espejo, Fundada esperanza  e Poesía y palabra.