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Iluminar o mundo!

Cristóbal Céspedes Lorenzo e seu jovem sócio, Francisco Manzanares Cagua, carregam cocos recém-colhidos pelo rio até Copala, no México, que serão vendidos à uma empresa que produz manteiga e óleo de coco.  

Fotos: Rubén Salgado Escudero – photographer & videographer

Texto: Katerina Markelova

“Será que eu tenho o direito de estar aqui?  Em mais de uma ocasião, Rubén Salgado Escudero fez a si mesmo essa pergunta enquanto viajava pela zona rural de Mianmar com seu caro equipamento fotográfico. O fotógrafo espanhol, que visitou este país em 2014 em nome de uma organização humanitária, ficou impressionado com a evidente falta de acesso à eletricidade. “A maioria dos vilarejos onde estive, não tinha eletricidade”, explica ele.

Das mais de 53 milhões de pessoas em Mianmar, 22 milhões são desprovidas deste bem essencial, que até então era tão comum aos seus olhos. Enquanto 79% dos moradores urbanos têm acesso à energia, este número cai drasticamente nas áreas rurais, onde apenas 43% da população pode acender as luzes de suas casas ao anoitecer.  

Uma vez concluída sua missão, Escudero seguiu viagem como fotógrafo por conta própria, e decidiu que mereceria o direito de estar lá. Ele ainda não sabia como, mas queria chamar atenção para o problema. A ideia dos Retratos Solares veio à mente quando ele conheceu vilarejos equipados com painéis solares. “A qualidade de vida daquelas pessoas era tão diferente da de alguns de seus vizinhos”, lembra ele.     

A energia é, de fato, “essencial para a humanidade se desenvolver e prosperar”, conforme destacado no Relatório de 2017 da Agência Internacional de Energia (International Energy Agency IEA). É essencial para se alcançar muitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pelas Nações Unidas em sua Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que inclui a erradicação da pobreza (ODS 1), o acesso universal à educação de qualidade (ODS 4) e a igualdade de gênero (ODS 5). A energia limpa e acessível para todos é, em si, um desses Objetivos (ODS 7). Esta é a primeira vez que o papel fundamental da energia foi reconhecido nessa escala, de acordo com o relatório.

No entanto, “em muitos países, o acesso à eletricidade ainda é um privilégio e não um direito”, diz o fotógrafo com indignação. Em 2017, havia cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo sem eletricidade. Contudo, como podemos atrair a atenção do público, cada vez mais cansado das notícias negativas que chega até ele todos os dias? “Encontrando novas maneiras criativas de contar histórias, para chamar a atenção das pessoas”, responde Escudero.  

Ele tira suas fotos apenas com a luz de lâmpadas LED alimentadas por painéis solares. Essa luz, que as concede um ar de quadros de Rembrandt e que, sem dúvida, a energia positiva que delas emana tem despertado um interesse que o fotógrafo não esperava. Publicadas na revista semanal norte-americana Time, e na revista mensal alemã GEO, suas fotos de Mianmar inspiraram entusiasmo do público. Tanto que o fotógrafo, com a ajuda de um leitor austríaco, lançou uma campanha para levantar fundos, Let there be light Myanmar. (“Que haja luz, Mianmar”, em tradução livre). Em 2016, os recursos arrecadados foram usados para equipar três vilarejos com painéis solares, beneficiando 400 habitantes.

Desde então, o projeto continuou a crescer. O fotógrafo novato mereceu atenção da revista norte-americana National Geographic, que o enviou à Uganda, na África subsaariana, em 2015, para completar a série. Estima-se que, até 2030, essa região abrigue 600 milhões das 674 milhões de pessoas vivendo sem eletricidade no mundo.

No mesmo ano, Escudero visitou a Índia, que atualmente realiza um dos maiores feitos da história da eletrificação. Desde o ano 2000, meio bilhão de indianos estão conectados à rede elétrica, e espera-se que o país consiga alcançar sua meta de acesso universal à eletricidade até o início dos anos 2020.

Em 2017, o fotógrafo viajou por todo o México. Em 2019, ele pretende visitar os navajos no Novo México (Estados Unidos), assim como a Guatemala, a Colômbia e as Filipinas.

Atualmente, Escudero organiza workshops nas escolas de cada comunidade onde faz o seu trabalho. Por meio de experiências práticas com lâmpadas solares*, os estudantes se familiarizam com o conceito de energia renovável, que é, segundo a AIE, a solução mais econômica para três quartos das novas conexões necessárias no mundo. “Quanto mais cedo sensibilizarmos as crianças sobre a importância desta questão, maior será a probabilidade de os futuros líderes não se mostrarem indiferentes ao tema, e nos levarem na direção certa”, explica ele.

 

Este ensaio fotográfico é publicado para marcar o Dia International da Luz, celebrado em 16 de maio.

 

Cavando uma latrina domiciliar no estado de Kayah, em Mianmar. No Sudeste asiático, 65 milhões de pessoas vivem sem eletricidade, 95% delas em quatro países – Camboja, Indonésia, Mianmar e nas Filipinas.

O Guru Deen Shukla bombeia água para seu neto do lado de fora de sua casa na Índia, em 2015. Cumprindo um compromisso de alta prioridade, o governo indiano finalizou a eletrificação de todos os vilarejos no início de 2018.

Faustina Flores Carranza e Juan Astudillo Jesús em sua casa em Guerrero, no México, recentemente iluminada por energia solar. Esta é a primeira vez que o casal, casado há 48 anos, foi capaz de olhar nos olhos um do outro depois do escurecer.

No estado indiano de Odisha, os aldeões capturam peixes usando cestos em forma de cone e iluminação solar. Segundo o governo, 9,6 milhões de residências no estado têm eletricidade.

Estudantes fazem suas lições de casa pós-escola em um centro comunitário alimentado por energia solar em Yangon, Mianmar. Estudos mostram o papel essencial da eletricidade na promoção da alfabetização e na melhoria da qualidade da educação. Em 2017, apenas 27% das escolas do país tinham eletricidade.

Daw Mu Nan, uma agricultora Padaung no estado de Kayah, em Mianmar. Os painéis solares tornaram-se mais baratos e mais eficientes, tornando-se uma fonte de energia viável e instantânea.

Graças à energia solar, os mecânicos ugandenses Ibrahim Kalungo e Godfrey Metza podem trabalhar mais horas e ganhar mais dinheiro. A taxa de eletrificação na África Subsaariana atualmente é de 43%.

Too Lei, um oozie, ou manipulador de elefante, posa em seu elefante na região Bago de Mianmar. Por 300 anos, os oozies trabalham com elefantes para garantir a exploração madeireira sustentável.

Um filme fotovoltaico inovador para ajudar a educação no Togo

Em 21 de fevereiro de 2019, um navio cargueiro deixou o porto de Saint-Nazaire, na França. A bordo: 65 kits que continham lâmpadas LED portáteis e recarregáveis, além de carregadores solares em forma de bolsas. Essas bolsas são equipadas com um filme fotovoltaico flexível, ultrafino e orgânico, de impacto ambiental mínimo. O remetente: a empresa francesa ARMOR, que desenvolveu esta inovadora tecnologia fotovoltaica em 2016. Seu público-alvo: 212 estudantes de Agou Akplolo, um vilarejo sem energia elétrica ao norte de Lomé, no Togo. Apenas 35% dos 7,7 milhões de habitantes desse país subsaariano têm acesso à eletricidade. O projeto é o resultado de uma parceria que a UNESCO firmou com a ARMOR em dezembro de 2018. Seu objetivo é fornecer luz às crianças, para que elas possam estudar após o pôr do sol.

Lâmpadas solares são lâmpadas, normalmente de LED, que funcionam com energia solar.