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A inteligência artificial, na porta da África

Os líderes africanos devem adotar a tecnologia e usar a Quarta Revolução Industrial (4RI) para tirar o continente da pobreza e conduzi-lo a um futuro melhor, diz o cientista e especialista em inteligência artificial (IA) sul-africano, Tshilidzi Marwala.

Tshilidzi Marwala, entrevistado por Edwin Naidu, jornalista sul-africano

No final dos anos de 1980, o governo chinês começou a investir na economia e, desde então, já tirou 800 milhões de pessoas da pobreza. O sr. vê o governo sul-africano sendo capaz de alcançar resultados semelhantes por meio de investimentos na 4RI*, ainda que com uma população menor?

Acredita-se que a China seja o último país do mundo a conseguir ganhar dinheiro com mão-de-obra barata para tirar as pessoas da pobreza. Se os robôs forem utilizados no processo de produção, provavelmente esse processo será ainda mais barato do que tradicionalmente foi no passado. Portanto, receio que a completa automação do processo de produção anunciada pela 4RI possa marcar o custo da mão-de-obra como um obstáculo aos olhos dos empregadores.

Sem dúvidas, a 4RI transformará o mundo do trabalho com máquinas artificialmente inteligentes desempenhando tarefas que eram tradicionalmente realizadas por humanos. Como consequência, o mercado de trabalho já está encolhendo, dado que as fábricas têm empregado um número menor de pessoas do que antes. Haverá um aumento acentuado da desigualdade. Aqueles que dispuserem de capital adequado para comprar robôs industriais produzirão mais com menos recursos e se tornarão muito ricos, enquanto os demais serão relegados à margem da sociedade.

A África do Sul, e o continente africano, não têm escolha senão aderir à 4RI e utilizá-la para encontrar soluções para a infinidade de problemas que enfrentam.

Todos os governos africanos estão investindo na 4RI?

Não creio que esse seja o caso, embora existam alguns bolsões de excelência encontrados em Moçambique, no Congo, no Quênia, em Ruanda e, até certo ponto, na África do Sul. A mobilização em uma questão como a 4RI em um continente com 54 países é muito mais complicado do que em apenas um país, mesmo tão grande quanto a China. Considerando que os países estão em diferentes estágios de desenvolvimento, torna a situação ainda mais complexa.

Na minha opinião, a 4RI será sobre dados – quer sejam dados pessoais, genéticos, ou produzidos pela própria 4RI. A pergunta que devemos fazer é, os países africanos estão obtendo dados? Receio que não. Os maiores captadores de dados da África são as multinacionais norte-americanas. Quando se trata da coleta ou da gestão de dados, a pontuação da África seria três em uma escala de dez. Este número é alarmante.

Um dos grandes problemas da 4RI é que o vencedor leva tudo. Na África do Sul, tínhamos um mecanismo de busca local chamado Anansi, que coletava dados locais de forma ativa, mas não foi páreo para o Google – por isso, deixou de existir desde 2011. Poucas pessoas saberiam dizer qual é o segundo maior mecanismo de busca do mundo – a resposta é o Microsoft Bing, mas até eles estão com dificuldades. Não há espaço para um número dois nesta área – o fato de que o Google não está disponível na China é uma grande vantagem para as empresas chinesas.

No entanto, os gigantes da internet, assim como a maioria das empresas, não gastam muito tempo lidando com problemas locais. Por exemplo, o Google Maps não pronuncia bem os nomes de nossas rotas locais. Se produzíssemos nossos próprios mapas nacionais, com as pronúncias corretas, teríamos uma vantagem sobre o Google. A chave para a competição é abordar os desafios em escala local.

Até que ponto os países africanos estão se tornando produtores de tecnologia da 4RI?

Para ser honesto, eu acho que produzimos muita tecnologia. Ouço muito sobre Elon Musk e seu carro Tesla, mas a África do Sul tinha o Joule [um carro elétrico para cinco passageiros], que foi descontinuado porque teria de vender 1 milhão de unidades para que o projeto fosse viável. Registramos muitas patentes, mas nossos mercados simplesmente não são grandes o suficiente, então nossos produtos estão morrendo nos laboratórios. A economia dita que você precisa vender 1 milhão de unidades para ser viável. Não basta criar a tecnologia, precisamos também criar novos mercados e construir uma estratégia de exportação eficaz.

As empresas deveriam desempenhar um papel mais importante nas parcerias público-privadas (PPPs) e com os governos na 4RI?

Com certeza, as empresas devem desempenhar um papel importante. Tenho observado, e este é um ponto de vista controverso, que há uma cultura que não considera a África como um local de produção. Por exemplo, não existe fábrica da Apple na África. É muito mais fácil estabelecer parcerias com empresas que têm produção nos países em que operam do que com aquelas que apenas importam para o país seus produtos fabricados em outro lugar.

Que mecanismos precisamos implementar para que as multinacionais invistam em produção no continente? Na África do Sul, a indústria automobilística é um bom exemplo, onde há uma política governamental para subsidiar as empresas automobilísticas que produzem aqui. Atualmente, não temos políticas semelhantes para empresas envolvidas na 4RI; e é isso que precisamos fazer para avançarmos. A criação de zonas econômicas especiais para a 4RI seria uma boa ideia, com governos oferecendo incentivos fiscais às empresas que promovam a produção, a criação de empregos e ajudem o crescimento econômico.

Esses incentivos não deveriam ser apenas para empresas estrangeiras, as empresas locais também deveriam ser beneficiadas.

Isso significa que os líderes políticos precisam desempenhar um papel fundamental no processo de introdução de novas tecnologias.

Uma das primeiras coisas que a África precisa fazer é começar a ter líderes que entendam de tecnologia. Em Ruanda, a internet de alta velocidade torna óbvio que o Presidente Paul Kagame entende de tecnologia. No Quênia, o número de startups da 4RI e o lançamento de moedas digitais deixam claro que o Presidente Uhuru Kenyatta entende de tecnologia.

INa África do Sul, o Presidente Cyril Ramaphosa é o primeiro líder a colocar a 4RI na vanguarda de sua estratégia, e ele é um grande defensor da ciência e tecnologia. Em seu discurso de Estado da Nação, em fevereiro de 2018, ele falou sobre a revolução industrial digital e se comprometeu a criar uma comissão de especialistas em 4RI para definir a estratégia. Precisamos de uma estratégia nacional parecida com a Estratégia Nacional da Índia para IA ou com o plano de fabricação estratégico Made in China 2025 (Produzido na China 2025, em tradução livre) para transformar-se em uma força motriz inovadora de alta tecnologia. Espero que a comissão liderada pelo Presidente Ramaphosa crie uma estratégia que mobilize as forças políticas, econômicas e sociais para conduzir a economia por uma boa trajetória.

Atualmente, o continente africano conta com 1,3 bilhões de habitantes e ainda está crescendo – é o continente com o maior crescimento demográfico do mundo. Não seremos capazes de lidar com questões de explosão populacional, segurança alimentar ou urbanização sem a tecnologia da 4RI.

Nossos líderes devem entender a tecnologia – devem ser desenvolvimentistas em suas visões. E isto significa necessariamente que, para seguir adiante, devemos começar a identificar novos líderes com essas qualidades.

 

* A Quarta Revolução Industrial (4RI) – sendo construída sobre a ampla disponibilidade de tecnologias digitais trazidas à nós pela Terceira Revolução Industrial (ou digital) – é impulsionada por tecnologias emergentes, baseadas na combinação de inovações digitais, biológicas e físicas. Essas tecnologias mais recentes, que estão mudando o modo como vivemos e trabalhamos, incluem a inteligência artificial (IA) e a robótica, a internet das coisas (IDC), realidade aumentada, computação quântica, impressão 3D, blockchain, manufatura aditiva, neurotecnologias, geoengenharia, e edição de genoma.

Esta entrevista é publicada por ocasião do Dia Mundial da África, celebrado na UNESCO em 25 de maio.

Saiba mais 

Leia nosso número: Inteligência artificial: entre o mito e a realidade

 

Tshilidzi Marwala

Um dos mais importantes especialistas sul-africanos sobre Inteligência Artificial, Tshilidzi Marwala é vice-reitor da Universidade de Johanesburgo. Sua extensa pesquisa sobre IA foi publicada em periódicos de todo o mundo, e ele ganhou muitos prêmios, tanto no âmbito nacional quanto no internacional.