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Ameenah Gurib-Fakim: a ciência é a base do progresso social

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© Micheline Pelletier
Para combater a mudança climática e suas consequências, que afetam especialmente os Pequenos Estados Insulares, mais do que nunca é necessário estimular a pesquisa e a inovação, bem como apoiar os pesquisadores africanos, afirma Ameenah Gurib-Fakim, presidente de Maurício e cientista.

Entrevista com Ameenah Gurib-Fakim a Isabelle Motchane-Brun

Nós estamos vivendo em uma época de mudanças sem precedentes nos campos econômico, demográfico, ecológico e tecnológico. De que maneira a ciência, a tecnologia e a inovação são a resposta para esses desafios?
 
A ciência, a tecnologia e a inovação sempre foram a base do progresso social e da melhoria das condições de vida das pessoas em geral.
 
Com a explosão do crescimento da população mundial – 9 bilhões até 2050 –, nós precisaremos ter uma melhor compreensão sobre as ferramentas tecnológicas para nos adaptar, ao mesmo tempo em que usamos menos recursos, para garantir a segurança alimentícia mundial e a  autossuficiência em água e energia elétrica, tudo isso em um meio ambiente ameaçado pela mudança climática.
 
Em janeiro de 2017, a sra. apresentou a Coalizão para Pesquisa, Inovação e Empreendedorismo na África (Coalition for African Research, Innovation and Entrepreneurship – Carie), no Fórum Econômico Mundial. Qual é o seu objetivo?
 
A Carie é uma associação que reúne vários parceiros, a saber,  a Fundação Bill and Melinda Gates, o Wellcome Trust, a Nova Aliança para o Desenvolvimento da África (NEPAD) ae os Institutos Nacionais Norte-americanos de Saúde nos Estados Unidos, que decidiram se unir em um esforço comum para promover a pesquisa e a inovação no continente africano.
 
Seu objetivo consiste em contribuir para o desenvolvimento das habilidades dos pesquisadores africanos e ajudar a fortalecer o ambiente em que eles atuam. Têm ocorrido enormes progressos no campo da pesquisa na África, mas o impacto do trabalho feito é relativamente limitado e com frequência não é muito perceptível.
 
O que pode ser feito para mudar isso?
 
Frequentemente, os pesquisadores não têm os meios para dar seguimento a suas ideias, em termos de produtos ou de iniciar  empreendimentos comerciais. Além disso, o marco legal dos direitos de propriedade intelectual é inadequado. Com frequência, resultados de pesquisas terminam enterrados no fundo de gavetas, ou são divulgados em periódicos e tornados públicos antes de estarem protegidos por patentes. O objetivo da Coalizão consiste em intervir em diferentes níveis, de modo a fornecer a esses pesquisadores os meios para transformar a vida cotidiana dos africanos.
 
A palavra coalizão é associada mais estreitamente ao vocabulário político, não ao científico. Com isso, o desenvolvimento da ciência seria uma luta política acima de tudo?
 
A questão da “política” afeta todos os âmbitos. Obviamente, se boas decisões forem tomadas nos âmbitos políticos – em outras palavras, por aqueles que estão no poder –, seus efeitos nas instituições científicas serão positivos. A África somente irá progredir cientificamente se os gestores políticos reconhecerem a importância do financiamento da ciência.
 
A palavra coalizão não deve ser analisada de forma isolada, mas deve ser entendida como um meio de unir forças para avançar a ciência na África, para o bem-estar de sua população.
 
De que forma ela é diferente da Aliança para Acelerar a Excelência na Ciência na África (Alliance for Accelerating Excellence in Science in Africa - AESA), criada pela Academia Africana de Ciências e pela Nepad? 
 
Existem mais semelhanças do que diferenças. O objetivo da AESA é trabalhar na questão da saúde. Ela tem o apoio da Fundação Bill e Melinda Gates e do Wellcome Trust, entre outros. 
 
O grande número de organizações com objetivos parecidos não oferece o risco de haver sobreposições e diluir o financiamento?

Não existem sobreposições entre essas organizações, considerando que elas trabalham de forma complementar. Você sabe, a necessidade é tão grande na África, uma vez que o continente tem ficado para trás, que não existe o risco de o financiamento ser “diluído”. Nós devemos apoiar todas as iniciativas que visem a aprimorar os recursos e a desenvolver a pesquisa.

Eu relembro você que o continente precisa de vários milhões de engenheiros e cientistas para alcançar a proporção de engenheiros no total da população existente nos países desenvolvidos.

Pequenos Países Insulares como Maurício são vulneráveis por definição. O que eles podem fazer para combater as ameaças ecológicas? 

Maurício já está na relação de países em risco, em especial no contexto da mudança climática. Infelizmente, a quantidade de soluções para enfrentar o aumento do nível do mar é limitada, mas nós devemos consolidar e fazer um melhor uso do território. Por exemplo, a erosão em nossas praias pode ser reduzida com a plantação de mais mangues. Eles oferecem um ecossistema excelente para  eixes e outras formas de vida marinha. Em todo caso, devemos continuar a plantar árvores, uma vez que elas são a forma mais segura de reduzir as emissões de carbono na atmosfera. Devemos redobrar nossos esforços em termos de estratégias para desenvolver energias renováveis, a reciclagem de materiais e a gestão hídrica, porque a escassez de água será fortemente sentida.


Na costa de uma ilha que pode desaparecer com o aumento do nível do mar.
© Daesung Lee

Maurício ratificou o Acordo de Paris sobre Mudança Climática. Em termos concretos, que medidas o país já tomou para lidar com a questão do aquecimento global?
 
Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Maurício, como todo o continente africano, não contribui realmente com a emissão de gases de efeito estufa (GEE), mas estamos entre os mais afetados. Nós agimos em solidariedade com o mundo, realizando esforços para reduzir ainda mais os GEE.
 
Nós já começamos a desenvolver a nossa estratégia de energias renováveis, a melhorar a gestão hídrica e a revisar o planejamento e o uso da terra. Porém, devemos redobrar nossos esforços para assegurar que as nossas infraestruturas atendam a padrões “verdes”, com mais painéis solares, por exemplo, ou que elas obedeçam quaisquer outros padrões que façam parte do desenvolvimento sustentável.
 
Devemos estimular todas as tecnologias que levem a um uso de recursos com menos desperdício, melhores possibilidades em  termos de reciclagem, e indústrias energeticamente eficientes e com baixo uso de energia. Lentamente esses conceitos estão sendo impulsionados; algumas empresas têxteis, em particular, já estão operando com energia solar.
 
A educação e as ações de conscientização continuam sendo duas áreas importantes, porque é essencial que a população e outros atores econômicos apoiem esse conceito, em todas as iniciativas que o estado pretenda realizar.
 
Qual é a posição global das Ilhas Mascarenhas quanto à produção de energias renováveis? E o que é possível dizer sobre Maurício, se comparado a vizinhos como Reunião? 
 
Entre as Ilhas Mascarenhas, Reunião tem realizado grandes progressos, e eu acredito que lá se produz mais de 35% de energia verde. Rodrigues estabeleceu para si uma meta de depender unicamente de energia renovável no futuro próximo. Em Maurício, nós já implementamos vários parques eólicos e solares. Eu penso que o futuro desse setor é promissor e que nós estamos indo na direção certa.
 
A revista Forbes relacionou o seu nome no Top 100 das Mulheres Mais Influentes no Mundo. O que isso significa para a sra.?
 
Antes de qualquer coisa, eu gostaria de agradecer a revista por esse reconhecimento. Penso que esse tipo de visibilidade é sempre bom para o país. Estou muito feliz se eu posso contribuir em mostrar para o mundo que, apesar de Maurício ser um país pequeno, ele pode ter grandes ambições!
 
A sra. escreveu no Twitter: “As mulheres africanas estão no coração da agenda do desenvolvimento do continente, mas suas ontribuições raramente são avaliadas e reconhecidas”...
 
Sim, é evidente que o valor verdadeiro da contribuição das mulheres nem sempre é reconhecido no continente africano. Se nós  observarmos a agricultura, são as mulheres africanas que alimentam o continente. Porém, nem sempre há condições de garantir o seu pleno desenvolvimento em termos de acesso a fundos, títulos propriedade da terra ou formação. Se as mulheres pudessem remover todos esses obstáculos, com certeza nós poderíamos ver melhorias consideráveis em termos da produção de alimentos.
 
Isso também é verdade para o acesso à educação, tanto a primária  quanto a superior: com frequência, as meninas ainda se encontram em desvantagem. Se esse potencial fosse totalmente utilizado com a orientação apropriada, as mulheres poderiam realmente ajudar o continente a superar a sua situação atual.
 
Há poucos anos, a sra. queria desenvolver fitofármacos, remédios desenvolvidos a partir de plantas, para combater doenças a um custo baixo. A sra. está realizando avanços nessa questão?
 
A validação das receitas tradicionais é um projeto que eu liderei quando estava na universidade na década de 1990. Aos resultados dessa pesquisa foi dado mais valor quando, em 2009, eu criei o Centro para Pesquisa Fitoterápica (CEPHYR), que, em 2015, se tornou o Centre International de Développement Pharmaceutique (Centro Internacional de Desenvolvimento Farmacêutico), CIDP Research and Innovation (R&I). A criação de uma gama de fitofármacos ainda está na lista de objetivos do CIDP R&I, mas realizar a transição da pesquisa para a comercialização requer tempo em uma grande quantidade de recursos.
 
O trabalho continua, apesar de eu não estar mais lá. Por exemplo, graças ao trabalho do CIDP R&I, o óleo extraído dos limões de Rodrigues encontrou compradores na indústria de perfumes! Muitas plantas medicinais de Maurício são usadas como fitocomponentes que atendem às necessidades das indústrias de cosméticos e farmacêutica. 
 
Para a sra., poder significa a habilidade de ter uma influência de longo prazo, ao se deixar um legado. Como presidente e uma cientista reconhecida, que legado a sra. gostaria de deixar? 
 
O meu compromisso com a ciência e a inovação permanece inalterado. Ele apenas tomou uma forma diferente, pois eu estou envolvida com tomadores de decisão e outras instituições. Eu acredito fortemente na necessidade de se investir em instituições que fornecem a jovens os recursos para se trabalhar em questões que são prioridades para o continente, e que também exigem um Na costa de uma ilha que pode desaparecer com o aumento do nível do mar. bom domínio da ciência. É exatamente nesse estado de espirito que nós lançamos a Coalizão para Pesquisa,  Inovação e Empreendedorismo na África que você mencionou anteriormente.
 
O legado que eu deixarei será, espero, a conscientização sobre a necessidade de se ter instituições fortes e sobre os meios que devemos fornecer aos jovens para evitar a fuga de cérebros, por meio do desenvolvimento do seu potencial e de um meio ambiente no qual eles possam trabalhar. Isso requer recursos, e eu estou convencida de que eles se tornarão mais prontamente disponíveis. Essas ações vão ajudar os países da região a se destacar. A história tem mostrado que os países que investem pesadamente em ciência, tecnologia e inovação são os mais bem-sucedidos.
Como presidente da República das Ilhas Maurício desde junho de 2015 e laureada de 2007 com o Prêmio L'Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência, Ameenah Gurib-Fakim é reconnhecida por seu trabalho científico com as plantas medicinais das Ilhas Mascarenhas. Ela também é membro da Linnaean Society of London, da Academia Africana de Ciências, da Academia Islâmica Mundial de Ciências da Jordânia e do Instituto Africano de Ciências nos EUA.

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