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Chucho Valdés no piano: “Eu exploro todos os caminhos que existem!”

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© Francis Vernhet
Após Washington DC e a Casa Branca em 2016, o Dia Internacional do Jazz (comemorado em 30 de abril) viajará para Cuba, transformando Havana na capital mundial desse estilo musical que não conhece fronteiras. Enquanto seguem os preparativos para a sexta edição, nós conversamos com um de seus protagonistas, o pianista cubano Chucho Valdés, para conhecer mais sobre esse evento especial. 

Entrevista a Lucía Iglesias Kuntz com Chucho Valdés

Tendo participado do Dia Internacional do Jazz do ano passado, que memórias o sr. tem do evento?

Foi incrível. Foi a primeira vez em que eu fui à Casa Branca. Eu nunca pensei que teria essa oportunidade! A parte mais  impressionante é que, como músicos de jazz, nós formamos algo como uma família internacional. Quase todos nós tivemos a oportunidade de participar dos mesmos festivais ao redor do mundo, mas dessa vez, foi como uma reunião de família e, em termos musicais, todos nós nos demos muito bem. Eu toquei com um baixista norte-americano e com um guitarrista africano, o trompetista era australiano, e o percussionista, indiano. Foi uma experiência inesquecível, especialmente porque Chick Corea, Aretha Franklin, Herbie Hancock, Al Jarreau, Marcus Miller e outros grandes artistas de jazz também estavam presentes. Isso não é algo que você vê todos os dias! Nós provamos que o jazz é tão internacional que músicos de diferentes partes do mundo podem se reunir para tocar música. Foi um momento sem precedentes, como se os pais do jazz se reunissem para abraçar a sua gloriosa universalidade.

O sr. vai participar da comemoração deste ano do Dia Internacional do Jazz, que acontecerá em Havana. Está esperando alguma coisa especial? 

Sim, eu fui convidado para Havana e estou extremamente feliz de uma Após Washington DC e a Casa Branca em 2016, o Dia Internacional do Jazz (comemorado em 30 de abril) viajará para Cuba, transformando Havana na capital mundial desse estilo musical que não conhece fronteiras. Enquanto seguem os preparativos para a sexta edição, nós conversamos com um de seus protagonistas, o pianista cubano Chucho Valdés, para conhecer mais sobre esse evento especial. vez mais me encontrar na companhia de músicos de todas as partes do mundo. Eu espero o que é sempre esperado do jazz: seu sentimento de imediatismo. Nós simplesmente nos reunimos e escolhemos um tema sobre o qual improvisar. Com base nesse tema, cada um de nós vai apresentar o próprio método e o próprio estilo. Nenhum dos nossos estilos será idêntico a qualquer outro. Você pode ensaiar milhares de vezes, e a cada vez irá soar diferente. Isso é o mais incrível no jazz. Ele varia constantemente, e o púbico também sempre tem sua opinião para compartilhar. Nós ainda não sabemos o que vamos tocar, e isso é ótimo. Como sempre, será espontâneo, porque a improvisação é a peculiaridade do jazz. Vamos tocar no Grande Teatro Alicia Alonso, onde a acústica é excelente e o piano é muito bom. Ele foi dado de presente pela Steinway para o Ministério da Cultura em outubro de 2015, quando o grande pianista Lang Lang e eu tocamos com a Orquestra Filarmônica de Cuba. Todos nós já estamos emocionados com a ideia do que vamos produzir dessa vez. E o público ainda mais!


© 2016 Steve Mundinger

O sr. foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O que o motivou a aceitar essa nomeação?

Me pareceu importante fazer uma contribuição para a FAO, que intervém onde é necessário, em todo o mundo. Eu compus a trilha sonora para um documentário sobre o terremoto de 2010 no Haiti. Participei do projeto porque todos os lucros do lançamento do documentário foram para a reconstrução do país.

Como o sr. compõe sua música?

Como eu mencionei, o jazz depende principalmente da improvisação, embora existam arranjos nos quais a música é composta. É o que eu chamo de pie forzado (pé forçado) em Cuba. É um tema que é dado a você e com base no qual você então começa a improvisar. Nós também compomos as harmonias e vários acordes de melodias que devem ser tocados, ao mesmo tempo em que a sua criatividade continua a fluir de forma livre. Pessoalmente, eu praticava todos os dias para estabelecer as bases rítmicas das minhas experiências contínuas com as raízes do jazz afro-cubano: uma mistura que inclui os tambores Iorubá e Batá – do povo Iorubá, da Nigéria, do Togo e de Benin –, a conga cubana... Esses tons polirrítmicos são perfeitos para definir uma linha rítmica sobre a qual improvisar, ou uma linha melódica na qual a fusão dos metais, ou mesmo do piano, pode levar à improvisação. A partir daí, tudo o que você precisa fazer é ir mais fundo, porque esses arranjos musicais são uma base composta sobre a qual você pode, então, desenvolver sua improvisação.

O sr. sempre trabalha com os mesmos músicos?

Eu tenho trabalhado com minha banda, os Afro-Cuban Messengers, por um longo tempo e em muitas ocasiões agora, mas às vezes eu toco como pianista solo ou com uma orquestra, o que é uma experiência bem diferente. Recentemente, eu gravei um álbum, em Nova York, com a orquestra de Arturo O’Farrill… Basicamente, eu não me limito a uma única direção musical – eu tendo a explorar todos os caminhos que existem. Eu tento não me prender a nada – em vez disso, eu tento variar e continuamente encontrar novos caminhos.

Como o sr. aprendeu a tocar piano?

Deixe-me contar uma pequena história – na verdade, eu não me lembro do evento, mas me disseram que foi assim que eu comecei a tocar piano. Meu pai era o pianista e o diretor-assistente da orquestra do Cabaré Tropicana, a principal cena musical cubana que recebeu muitos grandes artistas do jazz nas décadas de 1940 e 1950. Quando eu tinha 3 anos de idade, um dia meu pai voltou para casa porque havia esquecido a partitura musical da segunda parte do show. Ele ouviu alguém tocando uma melodia no piano com as duas mãos – era eu. Ele perguntou para minha avó e para minha mãe quem havia me ensinado, e as duas responderam que eu não tinha tido nenhuma aula, que eu apenas tentava imitá-lo e que, quando ele saía, eu me sentava em seu lugar e tentava tocar como ele. Aparentemente foi assim que eu comecei. Ele então me deu algumas aulas e, quando eu tinha 5 anos, ele contratou um professor de teoria musical para me ensinar em casa. Quando eu tinha 9 anos, eu comecei a frequentar uma escola de música e a estudar piano.


© Frank Steward

O sr. então tocava música com seu pai. Como era tocar com Bebo Valdés?

Era incrível – tocar com seu professor e com seu pai é emocionante em dois níveis diferentes. Uma vez que eu também admiro muito a arte de Bebo, a cada vez que nós tocávamos juntos, eu aprendia alguma coisa nova. Quando eu tinha 15 anos, comecei a tocar ao vivo com ele, e nós tocávamos em dois pianos para a televisão. Penso que eu era o maior admirador de Bebo Valdés. Ele era um músico de talento, um pai fantástico e um professor extremamente exigente. Aos domingos, quando eu queria ir ao cinema, já estava arrumado e pronto para sair, ele me parava e dizia: “Sua aula de piano é amanhã – sentese e toque para mim o que você tem praticado”. Se o que eu tocava não era bom o bastante, ele dizia: “Escute – não vai ter cinema; vá se trocar, sente-se e pratique”. Hoje eu sou muito grato a ele, porque estudei o máximo que pude e direcionei todos os meus esforços para seguir os seus passos musicais.

O sr. também ensina seus filhos a tocar piano?

Eu tenho seis filhos, todos eles tocam instrumentos e todos são músicos muito bons. Não é porque eu ensinei música para eles, mas porque eles são realmente apaixonados por isso. É certo que a atmosfera musical geral da casa desempenha um papel aqui. Eu já toquei com Chuchito e com a minha filha Leyanis, que é uma pianista excelente. Ela se formou em escolas na Itália e em Cuba, e agora toca e compõe incrivelmente bem. Emilio toca percussão, e Yousi estudou direção de coro e toca bateria, assim como Jessi. Meu filho mais novo, Julián, tem 10 anos de idade, e há pouco eu dei a ele uma aula de música.

Atualmente, na era da música eletrônica e das evoluções digitais, como nós podemos estimular os jovens a continuar tocando jazz?

Desde a minha primeira banda, Irakere, na década de 1960, até hoje, eu colaborei com todos os tipos de novos talentos. Para mim, o século XXI tem tudo a ver com o mundo da eletrônica e dos computadores, o que levou muitas pessoas a usarem programas que facilitam consideravelmente a orquestração. Agora, é muito mais fácil de se fazer arranjos do que na década de 1950. A geração mais jovem domina perfeitamente essas técnicas, e eu tenho certeza de que elas são muito úteis. É aí que está o futuro.

 

Ganhador de seis Grammys e de três Grammys Latinos, Dionisio Jesús Valdés Rodríguez, mais conhecido como “Chucho”, nasceu em 1941 em Quivicán (Cuba). Ele é pianista, compositor, arranjador e maestro. Chucho gravou mais de 90 álbuns e colaborou em mais de 50 outros. Alguns de seus álbuns mais importantes incluem: Lucumí (1986), Solo piano (1991), Pianissimo (1997), Babalú Ayé (1999), Boleros inigualables (2000) e Border free (2013). Ele é filho de Bebo Valdés (1918-2013), o conhecido pianista de jazz afro-cubano.
 
 
Chucho Valdés

Winner of six Grammys and three Latin Grammy Awards, Dionisio Jesús Valdés Rodríguez, better known as “Chucho”, was born in 1941 in Quivicán (Cuba). He is a pianist, composer, arranger and conductor. Chucho has recorded more than ninety albums and collaborated on more than fifty albums. Some of his most notable albums include Lucumí (1986), Solo piano (1991), Pianissimo (1997), Babalú Ayé (1999), Boleros inigualables (2000) and Border free (2013). He is the son of Bebo Valdés, the well-known Afro-Cuban jazz pianist (1918-2013).