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Grande Angular

Crise hídrica de Angkor

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Chaque année, 2,5 à 3 millions de touristes visitent le temple d’Angkor.
© UNESCO / Eric Esquivel
Será que o complexo de templos de Angkor Wat, assim como a cidade de Siem Reap onde está localizado, se tornaram vítimas do próprio sucesso? A explosão do turismo e uma população crescente em Camboja resultaram em escassez de água, o que forçou as autoridades a explorar as águas subterrâneas, chegando a baixar perigosamente o nível do lençol freático. Isso coloca uma ameaça à preservação de ecossistemas terrestres e causa a subsidência do solo sob o Sítio do Patrimônio Mundial de Valor Universal Excepcional. A UNESCO, em consulta com especialistas internacionais e autoridades locais, está estudando a possibilidade de bombear as águas da Reserva da Biosfera de Tonlé Sap, para assegurar a gestão sustentável dos recursos hídricos e parar o afundamento do solo onde o templo foi construído. 

Por Chamroeun Sok

Angkor, um dos mais fascinantes conjuntos de ruínas de monumentos e templos em todo o mundo, espalha-se por 400 quilômetros quadrados dentro do Parque Arqueológico Angkor, protegido pela UNESCO. O templo tem atraído um número crescente de turistas desde que foi aberto à visitação menos de 25 anos atrás. Mais de 4 milhões de visitantes — dos quais 2,5 milhões são estrangeiros — se dirigiram no ano passado a esse assentamento medieval único, colocando uma enorme pressão sobre os escassos recursos hídricos da área.
 
O Complexo de Angkor, que abrange 112 vilas e florestas, e a florescente cidade de Siem Reap, um desenvolvimento relativamente recente destinado a fazer frente à explosão da indústria do turismo, correm o risco de se tornarem vítimas de seu próprio sucesso.
 
Com seu aeroporto internacional e uma população em crescimento de mais de 1 milhão de pessoas, além dos turistas que alimentam sua economia, Siem Reap, capital da província do mesmo nome, em menos de duas décadas, transformou-se de um sonolento remanso à beira do rio em uma cidade movimentada. A cidade tem um aeroporto internacional, mais de 100 hotéis, restaurantes, cafés e mercados cheios de lojas. Porém, os gramados verdejantes dos hotéis e resorts de cinco estrelas, os deslumbrantes novos edifícios e um sofisticado campo de golfe têm um alto custo.

Lençóis freáticos perigosamente baixos

A província de Siem Reap tem um déficit anual de cerca de 300 milhões de metros cúbicos de água. Para compensar o desenvolvimento desenfreado e a escassez de água, o órgão responsável pelo abastecimento de água de Siem Reap retira todos os dias cerca de 27,9 mil metros cúbicos de águas subterrâneas para uso doméstico. Além disso, os níveis das águas subterrâneas sofrem impactos dos hotéis e de outras atividades comerciais, muitas das quais abriram milhares de poços e bombas privadas ilegais em toda a cidade para atender a suas necessidades de água.
 
Em Siem Reap, o lençol freático está localizado a cerca de cinco metros abaixo da superfície e, por isso, é de fácil acesso. Esse uso ilegal da água, em relação ao qual não há estatísticas disponíveis, ameaça a estabilidade dos templos e das torres de Angkor. Os tesouros arqueológicos foram projetados para se assentar em uma base de areia, mantida em seu lugar pelo fornecimento constante de águas subterrâneas, que aumenta e diminui dependendo da estação.
 
A subsidência do solo é o abaixamento ou afundamento da superfície da terra e pode causar danos incalculáveis aos templos, que por mil anos resistiram aos caprichos da natureza e das guerras. As causas comuns da subsidência do solo por atividades humanas incluem o bombeamento de reservatório de lençóis freáticos. O abaixamento do nível do solo é permanente, mesmo que os níveis das águas subterrâneas sejam recarregados. Embora ainda não tenham ocorrido problemas sérios com o afundamento de Angkor, e ainda não tenham sido realizados estudos específicos sobre o assunto, isso um dia pode vir a prejudicar o Sítio do Patrimônio Mundial.
 
O turismo responde por mais de 16% do PIB do Camboja e tem ajudado a aliviar a pobreza nas últimas duas décadas de paz, após 30 anos de conflitos. Embora tenham ocorrido esforços para restringir o número de residentes na área, não é viável impedir que habitantes de comunidades próximas se beneficiem dos empregos relacionados ao turismo na província de Siem Reap.
 
Com o objetivo de enfrentar o desafio de fornecer água de qualidade para a província, e ao mesmo tempo garantir a estabilidade dos templos de Angkor, a UNESCO realizou parcerias com partes interessadas. Estas incluem o Comitê Internacional de Coordenação para a Salvaguarda e o desenvolvimento do Sítio Histórico de Angkor ICC-Angkor, um fórum de especialistas técnicos em vários campos; e a Agência Nacional de Proteção do Sítio e Gestão da Região de Reap-Angkor APSARA, que administra o Parque de Angkor. O trabalho dessas partes interessadas, responsáveis pelo desenvolvimento sustentável do sítio, começa a produzir certos resultados positivos.
 
 


© Hang-Peou / Eric Frogé

A exploração de Tonlé Sap

Uma sugestão para aliviar o problema hídrico é bombear água de Tonlé Sap (Grande Lago), que se localiza nas proximidades. Parte da Reserva da Biosfera de Tonlé Sap, este é o maior lago do Sudeste Asiático e um dos ecossistemas de terras úmidas mais importantes de todo o mundo, devido a suas qualidades ambientais únicas e à sua extraordinária biodiversidade. A variedade da fauna e da flora de Tonlé Sap é retratada nos baixos-relevos do Templo de Bayon, em Angkor. Muitas de suas espécies vegetais são usadas com finalidades religiosas e médicas pelos cambojanos. Dois milhões de habitantes do Camboja também dependem da abundância da pesca no lago – um dos mais produtivos do mundo, com uma produção anual de mais de 250 mil toneladas de peixes.

É essencial que o governo cambojano considere o impacto ambiental antes de aprovar qualquer projeto com o objetivo de bombear água para Siem Reap. A biosfera, que também origina o Rio Tonlé Sap, tem uma importância enorme para os cambojanos. Atua como mediadora de inundações do Rio Mekong, que atravessa outros cinco países do Sudeste Asiático e, por isso, sua importância vai além do Camboja.

A cada ano, durante a estação chuvosa, o nível da água do Mekong se eleva e transborda para o Rio Tonlé Sap, o qual, ao invés de drenar o lago como ocorre durante a estação seca, é forçado a mudar de direção e a fluir de volta para dentro do lago. Esse fenômeno torna o Mekong o único grande rio do mundo a fluir em duas direções em diferentes épocas do ano. Essa inundação anual aumenta o nível do lago de 1 a 1,5 metro até 8 a 10 metros, o que quintuplica a sua área, uma vez que ele invade a planície de inundação. 
 
Uma das grandes histórias de sucesso relativas à conservação em todo o mundo, que inclui o ressurgimento de várias espécies de pássaros em  risco desde que os esforços de proteção se iniciaram em 1999, Tonlé Sap e sua planície de inundação estão registrados como a Reserva da Biosfera de Tonlé Sap no programa O Homem e a Biosfera (MAB) da UNESCO.
 
O crescimento anual de 20% do turismo também contribui para a poluição ambiental. O controle de resíduos continua a ser um problema, embora muitos dos templos sejam varridos e limpos de forma ritual. Pilhas de lixo são comuns em Siem Reap, e turistas e moradores locais não se preocupam em jogar lixo e despejar águas residuais diretamente no rio. Pessoas que vivem ao longo do Rio Siem Reap têm reclamado que a água é muito suja para ser usada ou para se tomar banho. Eles dizem que, há 12 anos, a água era tão limpa que podia ser usada em suas casas. Hoje, o rio é escuro e sujo, e a água tem um forte odor, segundo os moradores.
 


O desmatamento intenso – resultado direto da agricultura de corte e queima – cobra seu preço no Parque Nacional de Phnom Kulen.
© Erika Pineros

 

Embora Phnom Kulen (a “Montanha das Lichias”), localizada a 40 quilômetros a nordeste de Angkor Wat, esteja fora da rota das hordas de turistas que visitam os templos todos os dias, os efeitos negativos do desmatamento comprometeram sua exuberante cobertura de árvores. Localizada rio acima, a água da Montanha Kulen é outra fonte que flui através da bacia do Rio Siem Reap e deságua no Lago Tonlé  Sap. Aqui, a extração ilegal de madeira e a plantação de culturas de rendimento, como caju e feijão, tiveram impactos negativos sobre os padrões  hidrológicos no ecossistema como um todo, assim como na produtividade da pesca.

Recentemente, a UNESCO lançou o projeto-piloto “Enhancing and Restoring Water Systems in Angkor World Heritage Site and Siem Reap City” (Melhorar e Restaurar os Sistemas Hídricos no Sítio do Patrimônio Mundial de Angkor) a Cidade de Siem Reap. O projeto utiliza a abordagem da ciência da sustentabilidade para propor soluções e iniciar uma transformação sustentável das interações socioambientais na bacia hidrográfica. As políticas, assim como os marcos legais e institucionais são fortalecidos por meio de vínculos colaborativos, alianças de aprendizagem e intervenções específicas visando ao desenvolvimento de capacidades na área-piloto e nos âmbitos nacional, regional e da comunidade.

Cooperação verdadeira 

O estudo inclui uma campanha relacionada à água para conscientizar os moradores de Siem Reap sobre o impacto de uma redução dos lençóis freáticos em Angkor e sobre os efeitos do desmatamento na Reserva da Biosfera de Tonlé Sap.
 
O desenvolvimento sustentável dos sistemas hídricos na província de Siem Reap pode ser alcançado se houver uma cooperação verdadeira entre governo, partes interessadas e moradores. Por exemplo, o governo deve efetivamente fazer cumprir as proibições de extração de madeira que foram estabelecidas na Montanha Kulen.
 
Para resolver a séria questão da gestão hídrica, devem ser disponibilizados dados exatos sobre informações básicas como as taxas de bombeamento, os níveis dos lençóis freáticos, as taxas de recarga etc. Da mesma forma, tais dados devem ser compartilhados entre as diferentes entidades envolvidas, nos âmbitos local e nacional. Isso também permitirá o planejamento relativo aos recursos hídricos com base em previsões futuras. Dados sobre a extração das águas subterrâneas devem ajudar na previsão exata sobre o seu uso, e um sistema de monitoramento do nível dessas águas ao redor de Angkor pode alertar todas as estações de bombeamento e usuários privados, para que parem e esperem pela recuperação do lençol freático quando forem atingidos níveis muito baixos.

Retomar sistemas antigos

As pessoas devem ser educadas a não jogar lixo ou dejetos no rio. Outra iniciativa pode ser a recuperação do Rio Siem Reap para criar uma atração turística e uma fonte de água superficial no futuro. A restauração de mais templos em Angkor também pode ser usada para minimizar o desgaste causado pelo aumento do trânsito de turistas no sítio principal.

Pesquisas recentes mostraram que os antigos khmers, que construíram Angkor há mil anos, eram mestres em engenharia hídrica. Os governantes – como os administradores das cidades modernas – tinham de proteger os habitantes das inundações nas estações chuvosas, assim como fornecer água para o uso doméstico e para a agricultura nas estações secas e, por isso, construíram várias estruturas hidráulicas que sustentaram a civilização por seis séculos. As sofisticadas obras hídricas incluíam lagoas e canais artificiais que coletavam e direcionavam as águas pluviais, barays (reservatórios construídos) para estocar água para a agricultura, fossos, tanques de laterita, pontes e diques.

Durante oito anos, o Departamento de Gestão Hídrica da Apsara tem conduzido trabalhos teóricos e práticos, que permitirão a recuperação do antigo sistema hidráulico de Angkor. Por exemplo, os fossos de Angkor Thom e Angkor Wat, que rodeavam os templos, foram restaurados e reabastecidos após vários séculos.

Saiba mais sobre

The UNESCO International Hydrological Programme (IHP) 

UNESCO e os ODS

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para as Ciências Naturais

ODS 6 

ODS 15

Chamreoun Sok

Chamreoun Sok ((República da Coreia e Camboja) é um consultor independente. Após concluir o doutorado em engenharia civil e ambiental na Universidade Inje, em 2013, ele tem trabalhado principalmente com a gestão de recursos hídricos e o meio ambiente. Ele também foi consultor do Escritório da UNESCO em Phnom Penh, no projeto-piloto sobre ciência da sustentabilidade em Siem Reap:Sustainability Science pilot project (2015-2016).