Construir a paz nas mentes dos homens e das mulheres

Grande Angular

Um roteiro para mudar o mundo

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Arte produzida em um workshop do Create Peace Project (Projeto Crie Paz), que envolve estudantes em todo o mundo na troca de mensagens de paz.

É necessário fornecer à próxima geração uma educação que a ajude a se preocupar com os riscos mundiais que temos pela frente, além de entendê-los e enfrentá-los. Essa é uma condição para que possamos viver em paz uns com os outros e com o planeta em que habitamos, argumenta o especialista em educação Fernando Reimers. Ele criou dois currículos inovadores em Educação para a Cidadania Global na Universidade de Harvard, para ajudar os estudantes a se tornarem cidadãos globais.

Por Fernando M. Reimers

O que é a educação senão a construção de oportunidades para as pessoas desenvolverem as habilidades e a mentalidade que as ajudarão a viver de forma a ter objetivos que valham a pena alcançar?

Essa ideia vem desde pelo menos o século XVI, com o pedagogo Jan Comenius, que argumentou, eu sua obra Didactica Magna, que devemos educar todos as pessoas para que possa haver paz no mundo. A mesma ideia foi captada pela inclusão da educação como um dos direitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948, e no Preâmbulo da Constituição da UNESCO.

A inclusão desse direito na Declaração desencadeou uma das mais notáveis revoluções silenciosas pelas quais a humanidade passou. O acesso à educação básica em todo o mundo aumentou de menos de 50%, em 1948, para mais de 85% na atualidade, e a porcentagem da população que sabe ler aumentou de 36% para 85% no mesmo período (Global Rise of Education, 2017). Que esse aumento no acesso à educação tenha ocorrido enquanto a população mundial aumentou de 2,5 bilhões para 7,3 bilhões torna essa conquista ainda mais notável.

Ao longo da última década, procurei entender qual é a melhor forma de apoiar o desenvolvimento de sistemas educacionais para instruir os estudantes para serem cidadãos globais. O processo de educação que leva à competência global deve se fundar em um currículo de alta qualidade e ser sustentado pela efetiva preparação e pelo senso de liderança dos professores.

Com uma série de colaboradores, desenvolvi dois currículos escolares abrangentes, do jardim de infância até – e inclusive – o ensino médio. Continuamos a colaborar por meio de uma rede de escolas em todo o mundo, desenvolvendo recursos instrucionais para ampliar a educação para a cidadania global efetiva.

Cultivando uma mentalidade positiva

O primeiro currículo, publicado no livro Empowering Global Citizens (2016), foi elaborado em 2011 e 2012 para ser ensinado em um curso de seis a oito horas semanais, do jardim de infância ao ensino médio. Ele foi desenvolvido inicialmente para ser ensinado na Avenues: The World School, uma rede mundial de escolas independentes que, na época, estava estabelecendo seu primeiro campus em Nova York.

Desenvolvemos um quadro de competências que incluiu ética, conhecimento, competências sociais, autoconhecimento e mentalidades, alinhado ao desenvolvimento de capacidades que ajudariam os estudantes a desenvolver uma consciência global e, ao mesmo tempo, a cultivar sua motivação e habilidades para enfrentar os desafios mundiais.

Central para a concepção de competência global foi a noção de empoderamento, que cultiva a mentalidade de que cada indivíduo pode fazer a diferença, pode tomar a iniciativa e assumir papéis de liderança.

Usamos uma abordagem de aprendizagem com base em projetos, oferecendo oportunidades aos estudantes de desenvolver seus próprios interesses e paixões; essa atividade também envolveu os pais e os membros da comunidade.

Em vez de ficar somente na aprendizagem de conteúdo, os estudantes se envolvem com a criação de um produto, o que demonstra uma compreensão mais aprofundada – seja um teatro de marionetes (jardim de infância), um plano de negócios (3ª ano) ou um empreendimento social (8ª ano).

Por exemplo, no 3ª ano, os estudantes aprendem sobre a interdependência mundial por meio da criação de um projeto de manufatura de chocolate e da criação de uma campanha de marketing que aborda as cadeias alimentares mundiais, a ética do livre comércio e o trabalho infantil.

Quando esse primeiro currículo foi publicado e amplamente compartilhado, ficou claro que era necessário ter uma versão mais simples, para facilitar sua adoção em grande escala. Depoimentos das pessoas que adotaram o currículo ajudaram na elaboração de uma abordagem mais efetiva e acessível.

Entendendo a globalizaçãon

O segundo currículo, Empowering Students to Improve the World in Sixty Lessons (2017), oferece três ferramentas com esse propósito – um protocolo para criar e adaptar um currículo em cidadania global; um protocolo para criar uma estratégia voltada para a escola como um todo e visando à educação global; e um protótipo de currículo real, desenvolvido de acordo com o processo apresentado no livro.

Adotar e desenvolver um currículo desse tipo está ao alcance de uma ampla gama de escolas com níveis variados de recursos e apoio. Ter um protótipo concreto torna possível obter depoimentos sobre o processo. São apenas cinco lições para cada série – e, no entanto, é uma sequência rigorosa e robusta, com um conjunto claro de resultados de aprendizagem.

Esse segundo currículo está alinhado a um mapa de competências globais que caracteriza um formando de ensino médio capaz de entender a globalização e de apreciar as oportunidades que ela oferece a pessoas que colaboram para melhorar suas comunidades. Esse mapa de competências está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

À frente de uma aprendizagem de peso

Como parte da Iniciativa de Inovação em Educação Global (Global Education Innovation Initiative), um grupo internacional colaborativo de prática de pesquisa em políticas do qual estou à frente na Universidade de Harvard, está trabalhando agora com uma série de escolas e redes escolares de todo o mundo, aprendendo em conjunto como implementar currículos intencionais de cidadania global. Os dois currículos originais foram traduzidos e adaptados para o chinês, o português e o espanhol.

Estamos aprendendo que estabelecer condições que apoiam a educação em cidadania global de alta qualidade para grandes grupos requer liderança coletiva e esforços coordenados – entre uma série de organizações nos setores público e privado, ao longo de um extenso período de tempo – que sustentem a capacidade dos educadores de conduzir uma aprendizagem de peso.  

Da mesma maneira, a criação de oportunidades para que líderes educacionais compartilhem o que aprenderam com outros pode acelerar o processo de cultivo intencional do espírito de liderança, um passo essencial para tornar os sistemas educacionais relevantes para o século XXI, como discutimos em One Student at a Time. Leading the Global Education Movement (2017).

Existem fortes indícios de que currículos intencionais de alta qualidade e pedagogias efetivas podem empoderar os estudantes para se tornarem cidadãos globais ativos. A educação é, de fato, o caminho mais poderoso para ajudar os estudantes a melhorar o mundo. A tarefa de educar cada um do 1,2 bilhão de estudantes como cidadãos globais nunca foi tão urgente.

Journal of Social Science Education. (v. 13, n. 14, p. 41-55, Winter 2014).

Empowering All Students at Scale (REIMERS, F. (Ed.), 2016).

REIMERS, F.; TIERNEY, W. (Eds.). Educating the children of the poor: a paradoxical global movement. In: REIMERS, F.; TIERNEY, W. (Eds.). Rethinking Education and Poverty, Johns Hopkins University Press, 2015.

 

Fernando M. Reimers

Fernando M. Reimers (Venezuela) é professor da Fundação Ford de práticas em educação internacional e diretor da Global Education Innovation Initiative e do Programa de Políticas em Educação Internacional da Universidade de Harvard. Especialista no campo de educação internacional, ele se interessa em realizar avanços na compreensão das maneiras pelas quais as escolas podem empoderar estudantes a participar cívica e economicamente, assim como ajudar a alcançar os ODS.