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Grande Angular

Aftenposten versus Facebook: uma polêmica esclarecedora

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Versão do ilustrador norueguês Inge Grodum da foto icônica O terror da guerra, condenando a censura do Facebook por “conteúdo impróprio”.
© Nick Ut / Sipa Press / Inge Grodum
O papel cada vez maior que os sites de redes sociais desempenha na distribuição de notícias causa várias preocupações. Espen Egil Hansen, do jornal Aftenposten (Noruega), e Richard Allan, do Facebook, vêm de mundos diferentes, mas enfrentam um desafio parecido.

Por Marina Yaloyan 

É um ícone da fotografia de guerra: a imagem em preto-e-branco revela uma menina de 9 anos nua, fugindo de uma explosão, gritando, com o rosto retorcido de dor. Tirada por um fotógrafo vietnamita-norte-americano, Nick Ut, durante um ataque de napalm a uma vila vietnamita em 1972, a foto ganhadora do Prêmio Pulitzer, O terror da guerra (“The Terror of War”), causou polêmica em 2016, quando foi proibida de circular no Facebook devido a “conteúdo impróprio”.

“Escrevi a Mark Zuckerberg dizendo que eu não obedeceria”, lembra-se Espen Egil Hansen, o editor-chefe do Aftenposten, o maior jornal da Noruega, que compartilhou o post no Facebook e foi ameaçado de ser permanentemente banido. A carta ousada de Hansen, publicada na primeira página do Aftenposten, condenou o Facebook por criar regras que, em primeiro lugar, “não conseguem distinguir pornografia infantil de fotografias de guerra famosas” e, ainda, “excluem todo o debate possível”. A carta recebeu apoio em massa e se tornou o ponto de partida de uma discussão acalorada sobre as complexas regras de censura do Facebook e o controle do conteúdo por meio de algoritmos no feed de notícias.

Com mais de 2 bilhões de usuários em todo o mundo e um maior aporte de tráfego para sites de notícias do que o Google, o Facebook agora surge como um ator importante na distribuição de notícias, apesar de ainda escapar da responsabilidade formal que isso acarreta, ao se posicionar como uma “plataforma técnica”. Não obstante, é possível dizer que ele se tornou o maior site mundial de mídia, o que transformou Mark Zuckerberg no “editor-chefe mais poderoso do mundo”, segundo Hansen. 

“Lembrei a Zuckerberg que esse título pressupõe responsabilidade. Ele não é dono apenas de uma empresa de tecnologia, mas de uma empresa de mídia”. É exatamente por isso que Hanse considera que censurar uma imagem icônica do fotojornalismo por causa de nudez foi uma decisão editorial ruim. “Imagens perturbadoras podem nem sempre ser fáceis de se ver, mas são elas que ajudam a conscientizar as pessoas em uma sociedade democrática”, ele explica.

Milhões de pessoas postam conteúdo nas páginas do Facebook todos os dias, o que torna o processo de selecionar informações caso a caso um grande desafio. Richard Allan, vice-presidente de políticas públicas do Facebook para a Europa, o Oriente Médio e a África, defende as diretrizes gerais do site de rede social, que exige que qualquer fotografia de crianças menores de 18 anos que contenham nudez sejam identificadas e retiradas do ar. No entanto, ele admite que, com a foto O terror da guerra, essa política deixou a desejar. Durante o colóquio Journalism under Fire (Jornalismo sob Fogo, em tradução livre), ocorrido na UNESCO, em março de 2017.

Dois meses depois, o Facebook anunciou que contrataria 3 mil pessoas para complementar sua equipe de operações comunitárias, que conta com 4,5 mil funcionários, tratem notícias como exceções. “Existem fotos ocasionais de crianças nuas em que o interesse público quanto à divulgação da foto e, neste caso, o consentimento da pessoa envolvida, pesam mais do que a política usual do site”, diz Allan.

Algoritmo – o novo editor-chefe do mundo

No que diz respeito a escolhas editoriais, há pouca ou nenhuma diferença significativa entre o Facebook e as plataformas de notícias tradicionais. “Da mesma forma que um editor-chefe da Fox News é responsável pelo conteúdo editorial da Fox News, Mark Zuckerberg é responsável pelo conteúdo editorial do Facebook”, insiste Hansen.

A única diferença real entre os dois é o amplamente incompreendido e controverso algoritmo do feed de notícias que os editores das mídias tradicionais não usam.

Por enquanto, os algoritmos continuam a formar os hábitos de leitura de cerca de um bilhão de usuários ativos do Facebook, ou um quinto da população mundial. A função oficial do site é sondar e analisar todas as informações postadas por qualquer usuário na semana anterior, levando em conta cada página que ele ou ela curtiu, todos os grupos a que ele ou ela pertence e todas as pessoas que ele ou ela segue. Então, de acordo com uma fórmula muito protegida e em constante evolução, o algoritmo ordena os posts na ordem exata que ele acredita que o usuário vai achar vantajosa.

No entanto, a própria natureza do algoritmo pode transformá-lo em uma ferramenta controversa e até mesmo perigosa. “Os algoritmos podem criar as chamadas ‘bolhas de filtragem’, que reforçam uma tendência negativa de nossa época – a que leva a comunidades mais polarizadas”, diz Hansen. “Mais e mais pessoas vivem em bolhas, nas quais elas recebem apenas as informações que desejam e somente se comunicam com pessoas que pensam parecido”. Dessa perspectiva, os critérios de seleção usados por um algoritmo para classificar informações se tornam crucialmente importantes.

Allan, no entanto, compara o feed de notícias a uma assinatura de um periódico e nega que o Facebook imponha conteúdo a seus leitores. De acordo com ele, o algoritmo simplesmente permite a organização dos periódicos da maneira mais conveniente para o leitor. O desafio, contudo, está na enorme quantidade de feeds disponíveis. “O que descobrimos é que as pessoas assinam milhares de feeds diferentes, quando só têm tempo para ler 20 deles”, ele diz. “Os mil feeds ainda estão lá, mas isso obviamente cria um processo de seleção, pois selecionamos os que vão aparecer nas primeiras posições”.

Favorecer as informações que os leitores preferem pode se mostrar um caminho escorregadio. De acordo com Hansen, é uma “estratégia conveniente quando se assiste à Netflix [a plataforma de streaming de filmes com sede nos Estados Unidos]”, mas continua sendo um “princípio questionável para a livre circulação de informações em uma sociedade”.

Notícias falsas – soluções reais?

 

Em uma nota positiva, os sites de redes sociais de fato atravessam fronteiras e facilitam a expressão das pessoas. “Quando escrevi minha carta para Mark Zuckerberg, eu a publiquei em um pequeno jornal de um pequeno país, mas o artigo viralizou de imediato. Ironicamente, acho que foi o próprio Facebook que tornou o artigo tão popular”, lembra-se Hansen, cujo próprio jornal tem mais de 340 mil seguidores no Facebook. No entanto, ele admite rapidamente que a oportunidade dada a todos de publicar informações é uma faca de dois gumes que pode levar à desinformação. “É óbvio que, hoje em dia, é mais fácil conduzir grandes parcelas da população ao erro. Eu me pergunto se, como uma sociedade, estamos mesmo preparados para as tendências alarmantes que estamos testemunhando”, ele diz.

Em uma série de escândalos relacionados a notícias falsas que abalou o Facebook em 2016, a empresa foi acusada de influenciar as eleições presidenciais dos Estados Unidos, ao espalhar notícias falsas e criar bolhas de filtragem que isolaram os eleitores e os impediram de ter acesso a outras opiniões. De forma geral, apenas as notícias falsas sobre a política norte-americana representaram 10,6 milhões de um total de 21,5 milhões de compartilhamentos, reações e comentários que essas histórias em inglês geraram no Facebook naquele ano, de acordo com uma análise. Um hoax (mentira) sobre o ex-presidente norte-americano Barack Obama gerou mais de 2,1 milhões de comentários, reações e compartilhamentos no Facebook em apenas dois meses.

Não é de se admirar que, para combater as críticas, o Facebook tenha introduzido um programa de checagem de fatos. A partir de maio de 2017, as histórias que forem marcadas por usuários como não confiáveis seriam verificadas por especialistas independentes de checagem de fatos e marcadas como “controversas”. 

“Não vamos removê-las (as histórias)”, ressalta Richard Allan. “Por um lado, não queremos ser os árbitros da verdade e editar conteúdo. Por outro, gostaríamos de construir uma comunidade informada, pois temos uma responsabilidade para com a nossa sociedade”.

Hansen vê o reconhecimento dessa responsabilidade como essencial. Ele elogia as melhorias que o Facebook adotou desde que sua carta [no Aftenposten] veio a público. “Mark Zuckerberg deu uma entrevista ao New York Times em que disse que a polêmica em torno dessa carta abriu seus olhos e o fez perceber que precisava mudar o funcionamento do Facebook”.

Essa percepção e as mudanças que se seguiram se tornam cruciais, especialmente considerando o enorme impacto das mídias sociais sobre as mídias tradicionais e sua onipresença cada vez mais real em nossa vida cotidiana.

 

Uma carta aberta que provocou mudanças

“[…] Escute, Mark, isso é sério! Primeiro, você cria regras que não distinguem entre pornografia infantil e fotografias de guerra famosas. Depois, aplica essas regras sem dar espaço para a ponderação. Finalmente, você até mesmo censura as críticas e as discussões sobre essa decisão – e pune a pessoa que ousa dar voz a essas críticas…

A mídia livre e independente tem a importante tarefa de fornecer informações, o que inclui até mesmo divulgar fotos, que, às vezes, podem ser desagradáveis, e que a elite dominante e talvez até cidadãos comuns não conseguem ver ou ouvir, mas que podem ser importantes exatamente por esse motivo...

A mídia tem a responsabilidade de considerar a publicação em todos e em cada um dos casos. Isso pode ser uma responsabilidade pesada. Cada editor deve pesar os prós e contras. Esse direito e dever, que todos os editores do mundo têm, não deveria ser enfraquecido por algoritmos programados em seu escritório na Califórnia.

A Declaração de Missão do Facebook afirma que seu objetivo é “tornar o mundo mais aberto e conectado”. Na realidade, você está fazendo isso em um sentido totalmente superficial. Se você se recusar a distinguir entre pornografia infantil e fotografias documentais de uma guerra, isso simplesmente promoverá a estupidez e não cumprirá a missão de aproximar os seres humanos entre si.

Fingir que é possível criar regras comuns e mundiais para o que pode e o que não pode ser publicado apenas joga areia nos olhos das pessoas...”

(Excertos de uma carta aberta de Espen Egil Hansen a Mark Zuckerberg, publicada na primeira página do jornal Aftenposten em 8 de setembro de 2016.)