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Ideias

A importância de histórias “feitas em casa”

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© Cosmo Whyte
A ênfase em assuntos “feijão com arroz” como ciências, matemática e tecnologia em detrimento do estudo das humanidades está ameaçando a capacidade das pessoas na Jamaica e no Caribe de apreciar e contar suas próprias histórias.

Por John Ayotunde Isola Bewaji

Desde que os seres humanos desenvolveram a capacidade, sempre procuraram entender a vida em todas as suas dimensões, assim como o mundo em que vivem. E usaram não somente linguagem, literatura, filosofia, educação, religião, artes, história, antropologia, arqueologia e sociologia, mas também economia, psicologia, mídia, desenvolvimento, esportes, gênero, finanças, marketing, ciência política, estudos ambientais, estudos da comunicação, estudos culturais e o direito para interpretar e registrar o mundo em sua volta. Algumas dessas disciplinas são classificadas como ciências sociais por causa da necessidade de validação científica, mas acredito que elas também têm seu papel no estudo das humanidades.

Usando a linguagem, os seres humanos produziram e privilegiaram suas próprias narrativas em relação às narrativas advindas de outras regiões. Todas as civilizações levam a sério as narrativas que concretizam suas culturas, seus sistemas de conhecimento e os modos de ser que criam.

Três eventos tiveram efeito significativo na posição que as humanidades vieram a ocupar nas universidades ocidentais – a revolução científica, a revolução industrial e o logicismo, a moderna escola de pensamento matemático fundada pelo filósofo e matemático alemão Friedrich Ludwig Gottlob Frege (1884-1925).

As revoluções científica e industrial, juntas, deram origem ao positivismo lógico e à convicção de que toda a busca por conhecimento deve usar metodologia científica, sob pena de perder sua validade e sua relevância.

As consequências disso foram prejudiciais para as heranças intelectuais de sociedades não europeias – que frequentemente foram descritas como primitivas, não civilizadas, pagãs e retrógradas. Isso permitiu a apropriação econômica de todos os recursos dessas sociedades, por meio do colonialismo e da escravização dos povos da África.

Substituição de narrativas

A pior forma de conhecimento científico foi a aproximação das narrativas europeias – e árabes – a verdades universais, o que, consequentemente, suplantou e substituiu em todo o mundo as narrativas das sociedades autóctones. Isso explica o porquê de os africanos terem tão pouco conhecimento sobre seus próprios ancestrais. Eles usam nomes, línguas, religiões, ciência e tecnologias dos outros, se esquecendo – e, às vezes, até odiando – seus próprios sistemas autóctones de conhecimento, tradições de modos de ser, valores e ethos e, assim, se perdendo no mundo dos outros.

Vários questionamentos surgem daí. Em primeiro lugar, a industrialização levou à globalização de todas as formas de realidade. A globalização é inevitável, mas ela não impede que os povos do Caribe usem sua herança africana para ressignificar e encontrar novos caminhos para a existência civilizada. Não é necessário combater a globalização, mas ela pode ser enriquecida, com o uso das culturas históricas da ancestralidade dos povos específicos.

Em segundo lugar, a defesa de uma educação centrada em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (em inglês: science, technology, engineering and mathematics – STEM) cria um imperativo distorcido, de que outras disciplinas, que aparentemente não fornecem benefícios práticos diretos à sociedade, são de pouca serventia. Na Jamaica e nas Índias Ocidentais, a ênfase tem sido em ciência, tecnologia e nas ciências sociais na educação primária, secundária e terciária. Áreas como belas artes, música, ética, história, cultura e patrimônio são minimizadas ou removidas de todos os níveis educacionais, pois não são valorizadas como contribuições para o desenvolvimento humano.

Na Universidade das Índias Ocidentais (University of the West Indies – UWI), essa ênfase nas ciências acabou por fazer com que a Faculdade de Humanidades e Educação atraísse, de forma consistente, menos de 25% de toda a população estudantil, pois suas contribuições para o desenvolvimento nacional e regional são subvalorizadas. O jornal jamaicano The Gleaner publicou editoriais defendendo o corte de verbas pelo governo para disciplinas incluindo história, línguas, filosofia e artes. Também sugeriu que, ao invés disso, é preciso concentrar nas disciplinas que permitiriam à Jamaica e à região recuperar o atraso em relação ao primeiro mundo em termos de tecnologia. O jornal argumenta erroneamente que não é preciso conhecer-se a si mesmo, as próprias realidade, sociedade ou ancestralidade, e que, uma vez que se obtenha paridade tecnológica com o Ocidente, tudo vai ficar bem.

A terceira questão está relacionada ao declínio de fortunas financeiras nos âmbitos nacional, regional e individual. A educação, especialmente relacionada às humanidades, é a que primeiro sofre quando as sociedades passam por ajustes estruturais. As famílias e os indivíduos preferem investir em disciplinas que são “vendáveis, produtivas e que aumentam o status”. O mesmo se aplica a países que entendem que se deve dar ênfase ao ensino de ciências, engenharia, medicina e tecnologia, pois acredita-se que essas disciplinas levam a uma maior capacidade produtiva. 

Identidades e tradição

O estudo das humanidades é crucial para a valorização, a configuração e a projeção da identidade de uma sociedade. Quando uma sociedade negligencia a compreensão, a valorização e a difusão das humanidades, ela fica aberta a várias formas de abuso, à degradação de suas tradições e à apropriação de sua essência. Infligir o epistemicídio (o assassinato de sistemas de conhecimento ou a destruição de conhecimento existente) aos povos africanos na forma da “síndrome da bagagem vazia” levou ao empobrecimento dos africanos no mundo novo, de suas identidades e tradições, o que teve como resultado um povo confuso, desorientado e deslocado.

A violência desenfreada e a falta de civilidade na sociedade jamaicana são, em parte, manifestações disso. Mesmo que a Jamaica sempre tenha demonstrado uma grande força em todos os caminhos da vida, lá ainda persiste uma preferência por coisas ocidentais e europeias.

O pensamento na UWI tem sido vítima das circunstâncias históricas narradas pelo autor e educador jamaicano Errol Miller, que escreve sobre a dependência das economias regionais depois da abolição da escravatura e da independência. Por isso, não foi possível buscar paradigmas educacionais saudáveis, projetados para o ensino das humanidades, sem ter de se preocupar com os benefícios imediatamente perceptíveis desse tipo de ensino.

A UNESCO continua a liderar o desenvolvimento de um mundo mais humano, em que se valoriza a razão, a reflexão e a diversidade. No entanto, com a resistência ao pagamento de reparações aos povos que sofreram a pior forma de desumanidade da história humana, pelos horrores da escravidão no Atlântico, é compreensível que países caribenhos sejam mendicantes – incapazes de tomar decisões que tirem seus cidadãos da penúria. Isso provavelmente explica por que a Jamaica tem um dos maiores índices de homicídios do mundo, apesar de ser a terra natal de Marcus Mosiah Garvey (1887-1940, líder político, jornalista, editor e proponente do Movimento Pan-africano), do reggae (um estilo de música popular de origem jamaicana) e de Usain Bolt (velocista campeão olímpico).


© Francesco Giusti / Prospekt

 

A formação de professores é a chave

O que pode ser feito para melhorar a educação em humanidades na Jamaica e no Caribe? Os projetos de formação de professores e de educação da UNESCO devem ser aprimorados e promovidos na Jamaica e no Caribe, com a UWI na dianteira, assumindo um compromisso introspectivo do seu papel na educação em humanidades. A Universidade necessita de um departamento ou faculdade totalmente dedicado aos estudos filosóficos, o que ajudaria a fomentar o pensamento crítico no estudo de muitos outros assuntos, incluindo administração, turismo, resolução de conflitos e meio ambiente. 

É importante que se ensine humanidades nas instituições de educação primária, secundária e pós-secundária, na Jamaica e na região, pois a construção da paz ocorre na mente das pessoas. Os gêneros culturais e musicais de origem jamaicana transcenderam os limites do país e influenciaram o mundo todo, mas muito pouco foi realizado para ensinar e desenvolver essas tradições entre a juventude jamaicana. Esse conhecimento poderia ser usado para impulsionar a criatividade dos jamaicanos e empoderá-los economicamente.

Finalmente, é importante entender que as humanidades são o fundamento de tudo na geração de conhecimento – seleção, armazenamento, recuperação, disseminação e utilização. Países ricos e poderosos não deixam a educação de seus cidadãos para os outros. De forma semelhante, sociedades fracas e pobres devem considerar a necessidade de garantir que suas próprias histórias sejam “feitas em casa” e transmitidas à sociedade de uma forma saudável, que conduza à nossa humanidade coletiva – com toda a sua bela diversidade envolvida.

John Ayotunde Isola Bewaji

John Ayotunde Isola Bewaji (jamaicano nascido na Nigeria) é autor de vários livros, incluindo The Rule of Law and Governance in Indigenous Yoruba Society: A Study in African Philosophy of Law. Foi editor de várias publicações, incluindo o Caribbean Journal of Philosophy (CJP).