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Grande Angular

Um farol, graças à internet

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“It is impossible to photograph a subject with objectivity, but it is possible to show a story with truth,” says Juan Carlos, who took this photo of a bench that bears traces of a murder in a public park in Chalchuapa, El Salvador
© Juan Carlos
O jornalismo está passando por uma crise mundial. A onipresença da internet e das mídias sociais significou a proliferação de boatos e informações falsas. Porém, esses mesmos espaços podem ser usados para criar um jornalismo melhor, como demonstrou o El Faro, um jornal online pioneiro de El Salvador, em seus 20 anos de existência.

Por Carlos Dada

Alguns de nós, jornalistas, fomos forçados a seguir essa carreira – não tínhamos muita escolha. Em 1998, El Salvador estava saindo de uma longa guerra civil e estávamos tateando para seguir em frente, sem nenhuma figura para nos orientar. No entanto, estávamos convencidos de que o período pós-guerra precisava de uma imprensa revitalizada, com uma nova perspectiva e vozes independentes. O país merecia um novo jornalismo, e nós atendemos a essa necessidade.

El Faro (O Farol) iniciou suas atividades em maio de 1998, sem financiamento algum. Foi por isso que o lançamos pela internet, em uma época em que apenas de 2% a 5% da população salvadorenha podia acessá-lo. Nossa existência dependia das novas tecnologias, porque nunca poderíamos arcar com os gastos de produção de um jornal impresso. A opção pela internet acabou sendo uma decisão de muita sorte para nós, considerando que, na época, estávamos muito distantes de imaginar a influência que a rede teria no futuro da humanidade.

No início, nós fazíamos o El Faro juntos nas horas vagas. Aos poucos, jovens talentos foram se juntando a nós para aprender a usar essa nova mídia. Durante vários anos, tivemos zero de lucro, mas também praticamente não tínhamos despesas – cada um trabalhava de graça, de sua casa. Isso também nos ajudou a desenvolver nosso espírito independente. Quando a indústria começou a levar a internet a sério e os leitores começaram a procurar notícias online, já estávamos firmemente estabelecidos na rede.

A ausência de mentores e professores foi compensada por meio de leituras, e com doses saudáveis de autocrítica. Nosso jornal amadureceu na medida em que aprendemos com os nossos erros – estávamos sempre refletindo sobre o trabalho, debatendo e discutindo sobre o que estávamos fazendo.

Traidores da nação

Com o passar dos anos, eventualmente nos tornamos jornalistas pagos e conseguimos ter o nosso próprio escritório. Muitos dos alunos de jornalismo que haviam trabalhado conosco desde o início agora são sócios e acionistas do jornal. Em nossos quase 20 anos de existência, nos tornamos uma das publicações mais respeitadas da América Latina.

A maioria dos nossos esforços estão concentrados em reportagens investigativas ou narrativas que cobrem seis temas principais: violência e crime organizado, corrupção, crimes de guerra, cultura, pobreza e desigualdade, e política. Esses são os assuntos que, a nosso ver, estão menos presentes nas notícias. Porém, eles também são centrais para qualquer explicação do motivo pelo qual, mais de 20 anos depois do fim da guerra, El Salvador continua sendo um dos países mais violentos do mundo, tomado de desigualdades e pobreza, e muito dependente dos 2 milhões de salvadorenhos expatriados – um terço da população – que enviam dinheiro para o país.

O paradoxo desta profissão é que, quanto melhor jornalista se é, mais difícil se torna manter os amigos. Fomos chamados de traidores da nação, de protetores de gangues, de inimigos da propriedade privada e da revolução. Em um país polarizado entre dois extremos que entraram em combate na guerra civil, os governos de direita nos acusam de sermos esquerdistas, e a esquerda diz que tendemos à direita. Temos recebido algumas mensagens muito desagradáveis de traficantes de drogas, criminosos de guerra, líderes de gangues, políticos corruptos, executivos, militares e policiais. Essas ameaças nos obrigaram a entrar na Justiça várias vezes.  

Essas mensagens de descontentamento às vezes também vêm de leitores. Há alguns anos, nós publicamos um artigo que denunciava o massacre de jovens delinquentes a sangue-frio pela polícia. Vários leitores reclamaram que estávamos atrapalhando o trabalho da polícia, pois as gangues são a principal fonte de violência em El Salvador. Entendemos muito bem essas reações, mas está fora de questão mudar o nosso jornalismo para satisfazer as aspirações de nossos leitores ou aliviar suas ansiedades – um jornalismo populista seria irresponsável, nocivo e imoral.

Um fórum centro-americano

Mais recentemente, procuramos estender nossa cobertura aos países vizinhos – Honduras e Guatemala –, que têm níveis semelhantes de violência, corrupção e decadência social. Embora ainda não tenhamos conseguido realizar a cobertura sistemática que desejamos, já tivemos bons progressos na construção de uma rede de jornalistas na região que possa colaborar conosco em reportagens investigativas.

Depois de duas décadas de crescimento, muitos jornalistas do El Faro publicaram livros. Também realizamos transmissões de rádio, documentários, exposições e conferências. Isso porque nós sentimos necessidade de transmitir nosso conhecimento para as gerações futuras.

Todos os anos, no mês de maio, organizamos o Fórum Centro-americano de Jornalismo – uma semana de oficinas, conferências e exposições com dezenas de palestrantes convidados de toda a América Latina, dos Estados Unidos e da Europa. Os melhores jornalistas da região e de outros países ministram oficinas sobre jornalismo investigativo, radiojornalismo, fotografia e realização de reportagens. Mais de uma centena de jornalistas, a maioria da América Central, participou em 2017.

O Fórum é o evento principal de nosso programa permanente de treinamentos e conferências, visando a melhorar a qualidade do jornalismo na América Central. Essa é a região mais pobre do continente – colocar nossos jornalistas em contato com seus colegas de toda a América Latina abre novas possibilidades de colaboração para cobrir as questões que, cada vez mais, vão além das fronteiras de nossos países.

Carlos Dada

A Salvadorian journalist, Carlos Dada founded El Faro in 1998. He has covered events in Iraq, Venezuela, Mexico, Guatemala and Honduras. His articles are published in Latin America, USA, Bosnia and Spain. He was awarded the María Moors Cabot prize by Columbia University, New York, in 2011.