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Grande Angular

A história de Magdalena, Sudão do Sul

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Magdalena Nandege, uma jovem pacifista da Iniciativa Whitaker para a Paz e o Desenvolvimento (Whitaker Peace and Development Initiative – WPDI), no Sudão do Sul.
Nos últimos anos, tem havido uma maior consciência sobre os fortes laços entre cultura, segurança e paz. A história de Magdalena, uma jovem do Sudão do Sul – integrante da Rede de Jovens Mediadores da Paz (Youth Peacemaker Network – YPN), o principal programa da Iniciativa Whitaker para a Paz e o Desenvolvimento (Whitaker Peace and Development Initiative – WPDI) –, ilustra como a cultura pode ser aproveitada para transformar sociedades que sofreram impactos de conflitos em comunidades mais seguras e produtivas. 

Meu nome é Magdalena Nandege. Tenho 23 anos e sou do Sudão do Sul. Eu venho de Homiri, um município do condado de Budi, que tem uma população de cerca de 150 mil pessoas, a maioria das quais agricultores e pastores – como minha mãe, que é agricultora. O condado tem duas escolas secundárias e 11 escolas primárias, nenhuma delas com eletricidade. Apenas 15% da população é alfabetizada.

Atualmente, estou estudando para ser parteira no Instituto de Ciências da Saúde de Torit, a capital do estado de Imatong. Nós somos agora 24 estudantes, de um grupo inicial de 37 – alguns pararam de vir por causa da falta de segurança, da pobreza e do transporte inadequado. Eu escolhi essa carreia porque acredito ser importante tomar conta das mulheres. 

As mulheres são as pessoas mais vulneráveis do mundo porque carregam a vida. Isso não é pouco. Eu vivi essa experiência pessoalmente. Em 2014, eu estava em trabalho de parto e fui deixada sozinha, já que enfermeiras e parteiras estavam em greve para reivindicar salários atrasados. Depois, eu fui assistida por parteiras que trabalhavam para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Eu sabia, então, que as mulheres do Sudão do Sul precisavam de ajuda para reduzir a mortalidade materna.

Essa convicção também me levou a me inscrever na Rede de Jovens Mediadores da Paz, da Iniciativa Whitaker para a Paz e o Desenvolvimento. Eu entrei para a YPN em 2014, após ouvir falar dela por meio da União de Jovens da Equatória Oriental, da qual eu era secretária de gênero e bem-estar social.

Por meio desse programa, eu adquiri habilidades para promover a paz em mim mesma e entre os jovens da nossa comunidade – por meio de gestão de conflitos, mediação, tecnologias da informação e comunicação (TIC), meditação e empreendedorismo. A formação visa a reduzir a violência e promover a paz e o desenvolvimento. Ao completar o curso de 250 horas, eu fui certificada pela WPDI como formadora de formadores (trainer of trainees – ToT), para formar jovens locais e desenvolver atividades em comunidades distantes. As atividades consistem na facilitação de processos de paz e no desenvolvimento de negócios na comunidade, oferecendo serviços às comunidades e empregos para os jovens. 

O programa de Equatória Oriental reúne 18 ToTs e 156 jovens entre 16 e 35 anos, em payams (comunidades locais). Eles sabem ler e escrever, o que é importante, porque o programa envolve a interação por meio de plataformas de mídias sociais. Assim, nós podemos ajudar uns aos outros a lidar com conflitos e na gestão de nossos respectivos pequenos negócios.


Magdalena Nandeg com um grupo de jovens, trabalhando em um projeto agrícola de apoio a suas comunidades.

O programa também me ajudou a ganhar confiança, ao usar meu talento artístico para uma causa justa. Dramaturgia e histórias são muito importantes para transmitir mensagens. Como mediadora da paz, muitas vezes eu treino pessoas ou me envolvo em diálogos com a comunidade. Percebi que, quando os problemas são realmente difíceis, é mais fácil usar a arte, usar palavras que as pessoas entendem, porque as pessoas são capazes de diferenciar o certo e o errado por meio da arte.

Recentemente, eu fiz um curta-metragem sobre violência de gênero, Magda and Boniface – Forced Marriages (Magda e Boniface - Casamentos Forçados, em tradução livre), com um grupo de amigos e colegas da YPN. Nós usamos um tablet oferecido pela WPDI para fazer o filme, porque não tínhamos dinheiro para comprar uma câmera. Uma versão ficcional de situações que acontecem em nossas comunidades, o filme foi gravado em inglês, e também em toposa, árabe juba e árabe – cada um usou sua própria língua.

Muitas das pessoas no filme não eram atores profissionais. Jovens e líderes comunitários se juntaram para resolver o problema dos casamentos precoces forçados. O fato de eles terem aceitado participar do filme foi, para mim, um dos melhores momentos de todo esse processo.

O filme conta a história real de uma adolescente para quem a família quer arranjar um casamento, o que ela recusa. Ela tem a permissão de se defender perante um conselho, formado por sua família e a comunidade, e os convence de que uma mulher jovem deveria poder escolher seu parceiro e sua vida.

O filme foi compartilhado por meio de Bluetooth com jovens que tinham smartphones e também foi usado pela WPDI como uma de suas atividades. Nós ainda não mostramos o filme em escolas, mas fizemos uma projeção durante um treinamento de jovens de payams, e sua reação foi positiva. Os alunos reconheceram a necessidade de incentivar a educação de meninas e de desestimular os casamentos precoces forçados. Eu espero poder exibir o filme para um público mais amplo e fazer mais filmes como esse, com mais recursos.

Por meio dos meus estudos e da formação com a WPDI, a UNESCO e a ONU Mulheres, eu adquiri habilidades de construção da paz, gestão de conflitos, mediação, meditação, negócios e luta contra a violência de gênero. Eu aprendi muito sobre paz e direitos humanos. No entanto, isso precisa ser traduzido para as línguas que as pessoas falam em casa – é preciso falar com seus corações.

Eu acho que a arte pode fazer muito para a paz no Sudão do Sul, muito mais do que longos discursos. Ela pode mostrar personagens positivos com os quais as pessoas podem se identificar, convidando-as a praticar a paz e o desenvolvimento sustentável. Nós precisamos de mais arte no Sudão do Sul para que tenhamos mais paz.

LEITURA COMPLEMENTAR:

Niños soldados: la vida por delante, numa entrevista com Forest Whitaker, El Correo de la UNESCO, 2011-4