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Um Palácio de Cristal abriga um naufrágio

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O Museu da Rota Marítima da Seda de Guangdong é composto por cinco edifícios em formato oval e cilíndrico. Um deles, o Palácio de Cristal, é feito de vidro e abriga o Nanhai No. 1.
Enquanto a China comemora o 30º aniversário da descoberta do Nanhai No. 1, os visitantes do navio naufragado no século XIII podem ver arqueólogos escavando a embarcação no local, em um aquário especialmente construído para abrigar a estrutura. Uma maravilha de salvamento “no todo”, foram necessários 20 anos até que o navio pudesse ser retirado da água, seis anos antes para o início das escavações, e mais seis anos até o processo terminar, em 2018. Acrescente-se ainda mais 20 ou 30 anos para que a conservação do corpo do navio seja concluída. Uma entrevista com Jiang Bo, que compartilha detalhes dessa empreitada arqueológica sem precedentes.

Entrevista por  Katerina Markelova e Xiaorong Chen

O Nanhai No. 1 é dos um dos mais antigos e maiores navios naufragados já encontrados na China. Quando e como ele foi descoberto?

O Nanhai No. 1 foi descoberto em 1987 por uma equipe sino-britânica composta pela Agência de Salvamento Guangzhou e a PLC Exploração & Restauração Marítimas. Eles estavam procurando pelo navio Rimsgurge, da Companhia Holandesa das Índias Orientais, mas não conseguiram encontrá-lo. Em vez disso, eles acidentalmente acharam um navio mercante chinês que afundou do século XIII, enterrado 23 metros abaixo do nível da água.

A missão conjunta tentou recuperar alguns objetos do naufrágio. Isso foi feito?

Eles conseguiram retirar alguns objetos, mas destruíram completamente a traseira do navio no processo. Por sorte, o navio naufragado escapou a tentativas sérias de pilhagem, por causa de sua localização, que era visível do litoral.

Nanhai significa “Mar da China Meridional”, mas a que se refere o “No. 1”?

Ele se refere a uma forma arqueológica de denominar os naufrágios – o nome do local da descoberta aparece primeiro e, depois, vem o número que reflete a ordem em que os navios foram encontrados.

Tem-se ideia de por que o Nanhai No. 1 afundou logo no início de sua jornada?  

O cenário mais provável é que o navio estivesse sobrecarregado. Ou então ele afundou em uma tempestade.

Quantas toneladas de carga ele estava transportando?

O Nanhai No. 1 foi projetado para uma carga de quase 200 toneladas. Estima-se que ele estivesse carregando 100 mil conjuntos de antiguidades. O Nanhai No. 1 tinha uma carga muito rica: além das 13 mil peças de porcelana de cinco fornos famosos da época já escavados até então, ele levava 151 conjuntos de peças de ouro, 124 de prata e 170 de cobre, além de 17 mil moedas de cobre. O que encontramos estava muito além das nossas expectativas.


Visitantes do Museu participam da escavação arqueológica do naufrágio do Nanhai No. 1.

Vinte anos após sua descoberta, o navio inteiro foi suspenso da água, tornando-se o primeiro navio naufragado resgatado “no todo”.

Em 21 de dezembro de 2007, após nove meses de preparação, o navio foi suspenso e transportado do fundo do mar para o Museu da Rota Marítima da Seda de Guangdong, que foi especialmente projetado para isso. A Administração Estatal do Patrimônio Cultural da China e o Departamento de Transporte trabalharam juntos para construir um caisson [uma grande caixa à prova d’água] de 5,5 mil toneladas, grande o suficiente para conter o navio de 35,7 x 14,4 x 7,2 metros. A caixa foi submergida na água e pressionada sobre o leito do mar para cobrir o navio. Então, a lama em volta da caixa foi removida e o piso foi inserido, para que a caixa pudesse ser erguida até a superfície. A operação completa custou US$ 20 milhões.

A suspensão do Nanhai No. 1 é considerada o primeiro salvamento em sua totalidade no mundo. No entanto, a rigor existem outros exemplos – dois navios de guerra, o navio sueco Vasa, e o britânico Mary Rose também foram resgatados de forma similar. Porém, a China foi o primeiro país a usar criativamente um caisson, cuja proteção do navio era altíssima.

Apesar de a operação de salvamento ter sido realizada totalmente pelos chineses, nós precisamos de ajuda no que tange às escavações arqueológicas. Antes do início dessas atividades, em 2013, nós conduzimos testes com a ajuda de especialistas japoneses para decidir sobre qual seria a melhor forma de proceder.   

Quais são as principais descobertas desde que as escavações da carga começaram, em 2013?  

O navio estava bempreservado porque estava enterrado, e nós tivemos uma oportunidade única de conduzir a escavação de forma detalhada. Nós estamos obtendo muito mais informações do que se estivéssemos trabalhando debaixo d’água. Temos evidências arqueológicas claras de como as pessoas embalavam as coisas, e que tipo de comida elas consumiam no navio. Nós encontramos alguns objetos pessoais, como cerâmicas e objetos laqueados delicados, colares de ouro e cintos no estilo do Oriente Médio. Assim, sabemos que provavelmente também havia estrangeiros no navio – talvez indianos, talvez árabes. Nós também encontramos as ossadas de três indivíduos.

Sabe-se para onde ia esse navio mercante?

As cerâmicas chinesas já foram encontradas no Oceano Índico, na Índia, na Pérsia e no Oriente Médio – o navio provavelmente estava indo para um desses destinos. As rotas de comércio marítimo eram complicadas naquela época, com muitas paradas. Singapura, o Sudeste Asiático e a costa da África Oriental são destinos possíveis. O que é quase certo é que ele estava indo da China para o Oceano Índico.

Existem poucos registros de tecnologias de construção de navios de 800 anos atrás, na China ou no resto do mundo. O que se sabe sobre isso agora?

Este navio foi construído aproximadamente em 1216, durante a dinastia Song do Sul. O que foi confirmado é que esse tipo de navio, chamado de fuchuan, era construído na província de Fujian (fu significa “de Fujian”, e chuan significa “navio”). A característica mais peculiar de um fuchuan é sua tecnologia de anteparo à prova d’água, que foi inscrita em 2010 na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial que Requer Medidas Urgentes de Salvaguarda da UNESCO.

O sr. diria que a descoberta deste navio marca o início da arqueologia subaquática chinesa?

Sim, há 30 anos, o processo de pesquisa era orientado pelo entusiasmo pessoal de algumas poucas pessoas e por doações privadas. O escritório de pesquisa de arqueologia subaquática no Museu Nacional de História Chinesa foi criado em 1987, após essa descoberta, e sua missão inicial era apoiar o processo de exploração. O escritório podia contar com os dados de localização específica fornecidos em 1989 pelo Museu (agora chamado de Museu Nacional da China) e pelo Instituto Japonês de Pesquisa Arqueológica Subaquática, graças à doação de um comerciante de Hong Kong, Chen Laifa.

Três missões de pesquisa para o Nanhai No. 1 foram conduzidas por Zhang Wei, um dos primeiros arqueólogos marinhos da China. As condições no local eram difíceis, com pouca visibilidade e correntes marítimas fortes. Os arqueólogos perceberam, então, que a melhor opção seria retirar o navio da água – apesar de isso ser muito caro.

Centro de Proteção de Relíquias Culturais Nacionais Submersas foi criado pela Academia Chinesa do Patrimônio Cultural em 2009. Em 2014, o governo fundiu esse órgão com os departamentos de arqueologia subaquática do Museu Nacional da China, para formar o Centro Nacional Chinês do Patrimônio Cultural Subaquático. O objetivo consistia em averiguar a situação real das relíquias submersas chinesas e desempenhar um papel de liderança na sua proteção.

O que é único sobre as escavações do Nanhai No. 1?

Agora que o navio está dentro do museu, arqueólogos, especialistas em conservação e restauração, especialistas em mapeamento digital e sistemas de gravação trabalham todos juntos diariamente, o que não é comum. Nós também pensamos simultaneamente sobre como exibir o que encontramos. Quando um pacote é identificado, um arqueólogo imediatamente o abriria para ver o que tem dentro – já um museólogo não tocaria nele. É por isso que nós sempre conversamos uns com os outros.

O Museu da Rota Marítima da Seda de Guangdong é o único museu na Ásia com instalações para uma exibição subaquática desse porte. O sr. poderia falar mais sobre isso?

O Museu foi construído na ilha de Hailing, perto da cidade de Yangjiang, na província de Guangdong, e custou US$ 20 milhões. Ele é constituído por cinco prédios ovais, um dos quais, o Palácio de Cristal, feito de vidro, contém o Nanhai No 1. O navio é mantido em um aquário gigante que simula as condições exatas de qualidade e temperatura da água em que ele foi descoberto. Os visitantes do museu podem ver os arqueólogos realizando seu trabalho de escavação in loco no navio. Os visitantes também podem subir até o último andar para ficar sob uma simulação de céu estrelado, como se estivessem a bordo do navio à noite.

Hoje, Hailing, que costumava ser uma ilha remota, é uma das 10 principais ilhas turísticas da China – o Museu é seu único edifício moderno e atraiu mais de 3 mil mil visitantes em 2016. Os moradores locais se beneficiaram enormemente desse turismo.   

O que se espera do Nanhai No. 1 para o futuro?

Nós terminaremos as escavações da carga em 2018. O próximo passo será conservar o casco do navio, que ainda está na caixa que foi usada para içá-lo do fundo do mar. Nós mantemos a superfície da água nessa caixa no mesmo nível de quando ele foi escavado. Da mesma forma, um sistema de pulverização de água nos ajuda a manter a parte superior do navio molhada – ela quebraria se secasse. O navio e sua carga serão dessalgados e retirados da água nos próximos 20 ou 30 anos. Há controvérsias sobre como preservar o navio. Alguns sugeriram desmembrá-lo em partes, porém ele não poderia ser montado novamente. Outros são a favor de conservá-lo inteiro, como o Vasa, na Suécia.

Diversas exposições estão sendo planejadas, na China e no exterior, para conscientizar o público sobre o valor histórico do navio naufragado.

O Centro Nacional Chinês do Patrimônio Cultural Subaquático da China e a UNESCO organizam uma conferência internacional sobre a Descoberta e Estudo do Navio Naufragado Nanhai I, na cidade de Yangjiang, província de Guangdong, em novembro de 2017. 

VÍDEO:

Nanhai 1: Removal of silt reveals shipwreck artefacts

Jiang Bo

Jiang Bo é diretor e pesquisador sênior do Instituto de Arqueologia Subaquática, do Centro Nacional Chinês do Patrimônio Cultural Subaquático. Com diversas publicações e prêmios tanto na China como no exterior, em maio de 2017 ele realizou na UNESCO a palestra , Nanhai I, navios naufragados e a arqueologia subaquática chinesa.