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“As ameaças às espécies devem ser enfrentadas”

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© Olivier Ploux / Cartoon Movement

Enquanto muitas espécies estão agora ameaçadas, outras estão aumentando em número. Ações de conservação bem-sucedidas exigem uma abordagem de longo prazo, recursos e vontade política, como explica Remco van Merm, coordenador de Subsídios para a Conservação de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Entrevista por Agnès Bardon

UNESCO

Quais são as condições para que os esforços destinados a impedir o declínio ou o desaparecimento de espécies ameaçadas sejam bem-sucedidos?

Não existe uma solução milagrosa para evitar extinções ou alcançar recuperações populacionais. Os esforços bem-sucedidos dependem de vários fatores, incluindo a biologia da espécie, as ameaças que ela enfrenta, fatores sociais etc. Na verdade, geralmente é necessária uma combinação de diferentes esforços para fazer a diferença.

Por exemplo, no caso do guam rail – um pássaro endêmico da Oceania que que tem sido objeto de um programa de reprodução em cativeiro desde 1984 –, foram necessárias várias tentativas de reintrodução para possibilitar o estabelecimento de uma população autossustentável na Ilha de Cocos, na ponta sul de Guam, no Oceano Pacífico. A adoção de medidas para controlar a invasão da cobra-castanha-das-árvores também continua sendo fundamental.

A última atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN apresenta as histórias de sucesso do periquito-de-reunião, das Ilhas Maurício, e do bacalhau-truta (Maccullochella macquariensis) – um grande peixe carnívoro encontrado nas águas doces de Nova Gales do Sul, na Austrália. O periquito-de-reunião tem sido objeto de um programa de conservação desde 1973. O aumento dramático de sua população nos últimos anos se deve, em grande parte, ao manejo intensivo da população selvagem, combinado com um bem-sucedido programa de criação em cativeiro lançado em 1993.

No caso do bacalhau-truta, um programa de reprodução foi estabelecido na década de 1980, como uma tentativa de reintroduzir a espécie no Rio Ovens, onde antes era abundante. Em 1997, e em todos os anos seguintes até 2006, bacalhaus-truta jovens, criados em cativeiro, foram lançados no rio. Esse programa pode ter sido bem-sucedido porque alevinos e peixes de um ano de idade foram reintroduzidos, anualmente, durante dez anos, enquanto programas de curto prazo em vias fluviais menores tiveram sucesso limitado.

Esses casos demonstram que a conservação bem-sucedida requer esforços de longo prazo, bem como colaboração entre as várias partes interessadas..

O mesmo se aplica à conservação de espécies vegetais?

Para as plantas, no geral, deve ser mais fácil alcançar a recuperação, desde que as ameaças sejam devidamente tratadas. Muitas vezes, é necessária uma combinação de conservação in situ e ex situ. No entanto, nos últimos anos, foi registrado um número muito reduzido de êxitos na conservação de plantas. Um exemplo de projeto promissor é o trabalho de restauração de árvores ameaçadas nas florestas de araucária no Brasil, incluindo o seriamente ameaçado pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia). Contudo, levará alguns anos para mensurar seu sucesso, pois essas árvores são espécies longevas.

Quais são os principais obstáculos a serem superados para proteger as espécies ameaçadas?

Uma das primeiras prioridades deve ser o enfrentamento às ameaças que uma espécie esteja encarando. A menos que essas ameaças sejam afastadas ou, no mínimo, reduzidas a um nível administrável, é provável que quaisquer esforços para aumentar as populações de espécies fracassem.

Um dos principais obstáculos à proteção das espécies é a falta de recursos, tanto financeiros quanto humanos. Outro obstáculo é a falta de vontade política. Em âmbito mundial, os objetivos de conservação da biodiversidade ainda raramente são integrados ao planejamento do uso da terra, o que leva a maiores degradação e fragmentação de habitats importantes para as espécies ameaçadas.

As histórias de sucesso em conservação podem ser repetidas em outras áreas?

Sim, as histórias de sucesso podem ser repetidas em outros lugares, como demonstra cada atualização da Lista Vermelha, ao destacar as histórias de sucesso em diferentes partes do mundo.

Dito isso, uma solução que funciona para determinada espécie em um local pode não necessariamente funcionar para a mesma espécie em outro local – muito menos para outra espécie. Isso ocorre porque os êxitos dos esforços de conservação também dependem do contexto local, incluindo valores culturais e normas sociais locais. Vemos isso de forma muito clara em situações de conflito entre seres humanos e animais selvagens, por exemplo. Uma solução que funciona para resolver os conflitos entre seres humanos e elefantes em um cenário pode não ser adequada para outro contexto.

O turismo sempre causa um impacto negativo na conservação das espécies?

Não necessariamente. Em alguns casos, o turismo pode ser positivo para a conservação. Na realidade, a IUCN trabalha com o Fórum Econômico Mundial (WEF) para acompanhar as métricas de sustentabilidade das viagens e do turismo. A IUCN também publicou recentemente algumas diretrizes de boas práticas para o turismo e a gestão de visitantes em áreas protegidas.

O turismo pode contribuir para a conservação por meio dos benefícios econômicos que produz. Essas receitas podem, e devem, contribuir para a proteção de espécies – particularmente nos locais onde o turismo depende de populações de animais silvestres e habitats naturais saudáveis.

 

Este artigo será publicado em um próximo número sobre biodiversidade.

 

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