Interview

A educação transmite o valor do patrimônio natural e indígena

02/11/2020

FOTO: Denise Alvarez, presidente da Fundação Bradesco, uma fundação privada que está oferecendo educação de qualidade em áreas remotas do Brasil.

A mudança climática e a perda de biodiversidade não podem ser separadas uma da outra. Eu penso nisso da mesma forma como penso sobre a Floresta Amazônica: tudo está conectado – os rios, as árvores e as pessoas que vivem sob as árvores. Tudo. Temos visto os impactos da mudança climática – os incêndios, os rios secando... Resolvê-los é extremamente importante. Todos nós vivemos no mesmo planeta.

Denise Alvarez, presidente da Fundação Bradesco do Brasil

A pesquisa da UNESCO “O Mundo em 2030” revelou que os entrevistados em todas as regiões veem a mudança climática e a perda de biodiversidade como os principais desafios mundiais até 2030. De acordo com Denise Alvarez, abordar as questões conjuntas da mudança climática e da perda de biodiversidade está intrinsecamente ligado à proteção das culturas e dos conhecimentos indígenas e à cooperação com os povos indígenas. A tradução desses valores em políticas públicas eficazes, bem como a programação de uma educação holística, segundo ela, é a chave para reparar a relação da humanidade com a natureza.

“A Floresta [Amazônica] tem um valor enorme se estiver em pé, não cortada. Assim, você preserva um conhecimento importante – a sabedoria que os povos indígenas trazem –, mas somente se ela estiver de pé. Se um cientista for até lá, ele começará a aprender e a descobrir as pessoas que já estão lá há milhares de anos. É uma questão de respeitar os povos indígenas e sua relação com o meio ambiente”.

A conservação do meio ambiente implicitamente vinculada à proteção dos direitos dos povos indígenas 

“Hoje [no Brasil] temos 252 povos indígenas que falam 160 línguas. É vital protegermos suas culturas. Eles são os guardiões da floresta, e todo esse conhecimento está neles; é oral, não é guardado em uma biblioteca. Durante a COVID-19, alguns chefes indígenas morreram, e com eles sua sabedoria: o conhecimento sobre o manejo e a conservação florestal, além de todas aquelas plantas e animais [biodiversos]. Nós devemos estimular a implementação de políticas públicas de preservação do meio ambiente e dos povos indígenas”.

A precariedade e a exclusão que muitos povos indígenas enfrentam significam que os impactos da pandemia da COVID-19 podem ter implicações de longo prazo no que diz respeito à preservação de conhecimentos e da vida cultural indígenas. Para Denise Alvarez, a proteção desse patrimônio vivo é vital para se considerar na conservação ambiental, na formulação de políticas e na educação, como também é abordar o preconceito e fornecer plataformas por meio das quais os povos indígenas possam compartilhar e preservar seus conhecimentos..

Essas ações, que são benéficas tanto para os grupos indígenas quanto para o meio ambiente, devem ser reforçadas por meio do foco no acesso à educação para os povos indígenas e outros grupos marginalizados. A abordagem das barreiras estruturais à educação deve ser acompanhada por uma programação educacional coerente e holística. Para que seja abrangente e voltada para o futuro, diz Denise Alvarez, tal programação deve ajudar a transmitir o valor do patrimônio cultural e da sustentabilidade ambiental.

Educação ambiental, uma ferramenta importante para valorizar o patrimônio natural

“Acho que o patrimônio natural deve ser mais valorizado, pois ele está ligado à educação. Deve-se ensinar às crianças o valor do patrimônio natural desde a infância, para que, ao saírem da escola, elas entendam os desafios que enfrentamos, como incêndios florestais e o desmatamento da Amazônia e, assim, possam encontrar soluções”.

A preservação do patrimônio natural pode abranger o patrimônio cultural e a sustentabilidade ambiental. No Brasil, diz Denise Alvarez, a Amazônia representa um vasto patrimônio natural que deve ser valorizado e preservado, e cujo valor pode ser incutido nas crianças por meio da educação ambiental. De acordo com Denise Alvarez, a melhor forma de oferecer essa educação seria por meio da incorporação dos princípios do patrimônio ambiental e cultural nos currículos da educação formal.

“A educação para o desenvolvimento sustentável deve ser oferecida por meio da educação formal. Ela precisa vir dos ministérios da Educação, para que possa chegar ao maior número possível de crianças. E o currículo escolar deve ser um currículo para um cidadão do século XXI, para que uma criança que entre na escola hoje possa, em 14 anos, lidar com o mundo que vai encontrar ao sair dela”.

Essa educação também pode ser oferecida por programas de educação técnica e profissional dedicados a esse tema. 

“Um programa educacional de sucesso que eu conheço se chama ‘florestabilidade’, no qual se treinam jovens como gestores e educadores para o manejo da Floresta Amazônica e atividades produtivas sustentáveis. Esses jovens, então, aplicam essas lições em suas comunidades”.

Sistemas de educação holística vinculam o desenvolvimento sustentável à primeira infância 

De acordo com Denise Alvarez, uma das considerações mais importantes para os programas educacionais é o quão cedo você matricula as crianças na escola. Para ela, devemos começar na primeira infância.

A primeira infância é o período mais importante do desenvolvimento infantil, que nem todas as pessoas valorizam – nós vemos uma criança brincando, quando na verdade essa criança está desenvolvendo uma série de conexões que são essenciais para a forma como ela percebe o mundo. A educação infantil é muito importante para os resultados futuros das crianças.

Denise Alvarez

Ao manter o foco em sistemas de educação holística, diz Denise Alvarez, é extremamente benéfico integrar a educação para o desenvolvimento sustentável na educação infantil, não apenas para o planeta, mas também para a base de compreensão e para o posterior desenvolvimento cognitivo da criança.

“Quanto mais cedo você ensinar uma criança, mais inteligente ela será. Nós podemos mostrar às crianças desde cedo que elas fazem parte de um mundo onde tudo está conectado. Elas são capazes de entender o que é o planeta e que todas essas questões interagem entre si”.

A educação e a preservação do patrimônio inspiram valores importantes para o nosso futuro comum 

De acordo com Denise Alvarez, que fala a partir de sua experiência na oferta de educação pelo setor privado, transmitir esse conhecimento e disponibilizar a educação a todos são passos importantes para dar às crianças o poder de escolha, assim como as ferramentas para se engajarem como cidadãs do mundo.

“Oferecer uma educação de qualidade é difícil, mas nós não desistimos. É desafiador porque essas crianças entram na escola – uma escola grande, bem equipada, bonita e organizada – achando que não é delas, porque elas têm baixa autoestima; elas são pobres e não estão acostumadas com esse tipo de ambiente. No primeiro ano, elas entram meio assustadas e pensam que vamos cobrar delas, embora seja de graça; mas no segundo ano é lindo, porque elas sentem que pertencem a esse mundo. Essa é uma grande transformação. Elas saem da escola como cidadãs do mundo, entendendo que podem ir para a universidade, podem se tornar músicos, podem ser médicos. Elas podem ir a qualquer lugar”.

Parte do processo de se tornar um cidadão global consiste em compreender nossos desafios coletivos, como a mudança climática e a perda de biodiversidade, bem como os valores que nos ajudam a enfrentá-los. Nessa busca, diz Denise Alvarez, a UNESCO pode defender a importância de se envolver de forma ativa com os povos indígenas, ao promover a tolerância social, a coexistência pacífica, a inclusão de comunidades marginalizadas e a valorização de sua sabedoria e de seu conhecimento sobre a preservação ambiental. Outra força importante da UNESCO, diz ela, está em sua capacidade de traduzir em ações valores tão importantes como a preservação do patrimônio natural e cultural para as gerações futuras.  

“Se eu ensinar a uma geração que sua prioridade deve ser o corte de árvores para ganhar dinheiro com a madeira, não teremos mais a Amazônia. Se eu tiver uma educação que valoriza o extrativismo e negligencia a poluição dos rios da Amazônia, é isso que vou criar. Ensinar às crianças o valor do nosso patrimônio natural – a floresta, os povos indígenas – nos ajudará a construir um futuro no qual essas coisas serão protegidas”.

Denise Alvarez é membro do Grupo de Reflexão de Alto Nível da diretora-geral, uma iniciativa da Transformação Estratégica da UNESCO planejada para antecipar e analisar os desenvolvimentos mundiais e contribuir para o enriquecimento da próxima Estratégia de Médio Prazo da UNESCO.

 

*As ideias e opiniões expressas neste artigo são as da autora e não refletem necessariamente as visões ou a posição oficial da UNESCO. Esta entrevista foi realizada em inglês e em português.