Entrevista: conheça Ndasuunye “Papa” Shikongeni, artista da Namíbia

28/05/2021

O artista criativo namibiano e participante da edição de 2019 da Bienal de Luanda, Ndasuunye Shikongeni (apelidado de “Papa”) nos conta sobre sua trajetória artística e sobre o papel exercido pelos artistas na cultura de paz. 

Nós não podemos viver sem arte e sem cultura, porque esse é o nosso ritmo.

Ndasuunye "Papa" Shikongeni

1. Como o senhor se tornou artista?

Tornei-me artista depois de regressar do exílio, em Angola, em 1989. Fui visitar minha falecida avó Kuku Panduleni Simeon e, com sua sabedoria, ela explicou que quando era pequeno, eu brincava sozinho e não gostava da escola. Eu era criativo e desenhava no chão (no solo), cantava e dançava muito.

Em 1993, eu me encontrei com o conhecido artista, Joseph “Joe” Madisia, um dos artistas que costumava desenhar banners, pôsteres e camisetas para o partido da Organização do Povo do Sudoeste Africano [South West Africa People’s Organisation – Swapo, que surgiu como movimento pela independência da Namíbia]. Ele então me ensinou a técnica das artes visuais de impressão em papelão, em sua casa e no Centro Cultural Franco Namibiano [Franco Namibian Cultural Centre – FNCC].

 

2. Que papel a arte e os artistas exercem na cultura de paz na África?

Os artistas exerceram e estão exercendo um papel fundamental nas artes e na cultura, essencial até durante as lutas de independência da África, por meio das artes visuais, da música e da dança cultural para a paz e a justiça. Os artistas têm sido como os soldados rasos na educação e na conscientização sobre a paz e a unidade na África. As artes e a cultura são o espírito motriz da liderança africana para o auto-Ubuntu [conceito que pode ser entendido como “humanidade para com os outros”]. Nós precisamos agir coletivamente como uma nação humana.

© Ndasuunye PAPA Shikongeni

3. A arte necessariamente precisa ser engajada?

Não precisamos engajar as artes; nós somos arte e a arte somos nós. Não podemos viver sem arte e sem cultura, porque esse é o nosso ritmo. Nós a abraçamos e a praticamos a cada amanhecer e a cada pôr do sol, criando nossos artesanatos e nossas performances.

 

4. Como resultado da pandemia da COVID-19, a UNESCO lançou o “ResiliArt”, um movimento mundial para sensibilizar o público sobre a questão da precariedade dos artistas. O que pode ser feito para apoiar e empoderar os artistas – especialmente os jovens – durante este período especialmente difícil?

Em primeiro lugar, como africanos, precisamos reconhecer que arte, cultura e design são trabalhos para artistas, que precisam receber total apoio, com o fornecimento dos recursos necessários e de espaços para garantir sua sustentabilidade. Com isso, nós somos capazes de criar uma cultura de geração de empregos e desenvolvimento econômico.

Coletivamente, como africanos, devemos incentivar os jovens do nosso continente a abraçarem sua herança cultural, bem como as normas e os valores relacionados a nossos nomes, línguas e crenças. Portanto, nós precisamos implementar e desenvolver um currículo que enfatize no sistema educacional a nossa história de artes artesanais e a nossa herança cultural, de modo a garantir a riqueza de nossa identidade.

5. Apesar da pandemia, os eventos artísticos (bienais, exposições, festivais) continuam a ocorrer na Namíbia e na África como um todo?

Apesar da pandemia, nunca se pode parar a expressão da indústria criativa, pois os artistas são seres inovadores e criativos, que têm trabalhado de forma isolada em seus espaços privados, como estúdios e residências. Sim, os eventos artísticos continuam enquanto estamos conversando, de maneira presencial ou por meio de plataformas sociais.

6. O Tema de 2021 da União Africana é “Arte, cultura e patrimônio: alavancas para construir a África que queremos”. Essa é uma declaração em âmbito continental para que os Estados-membros invistam mais recursos na cultura e no patrimônio africano, a fim de promover a coesão nacional e regional. De que maneira a diversidade cultural e o patrimônio podem ser fontes e terrenos férteis para a paz?

A diversidade cultural e o patrimônio têm sido fontes e terrenos férteis da União Africana e da independência, por meio dos movimentos de libertação na África. Arte, cultura e patrimônio são as ferramentas positivas para mobilizar e libertar a sociedade entre nossos respectivos microambientes e países. São os nossos líderes africanos que devem trazer de volta a visão da Mãe África, implementando nossas artes e nossa independência cultural.

© Ndasuunye PAPA Shikongeni

Para ler mais sobre a Bienal de Luanda, clique aqui.