Entrevista: sete perguntas para Christian Achaleke, jovem líder de Cameroun

21/07/2021
05 - Gender Equality
16 - Peace, Justice and Strong Institutions
17 - Partnerships for the Goals

Christian Achaleke, nascido em Cameroun, é um jovem especialista em cultura de paz e ex-coordenador da Rede de Jovens Embaixadores da Paz da Commonwealth (CYPAN). Nesta entrevista, ele compartilha sua história pessoal, a importância e o papel da juventude na cultura de paz e o que ainda é preciso fazer para torná-la sustentável.

O papel dos jovens na construção da paz e no combate ao extremismo violento é uma conversa de importância crescente.

1. O que o conceito de “cultura de paz” significa para você?

Eu penso que uma cultura de paz é composta por conjuntos de valores, estilo de vida, moral e ética que são desenvolvidos como uma forma de prevenir conflitos ou violência, bem como para envolver as pessoas em uma vida pacífica e ética.

2. Na sua opinião, que ações concretas podem ser realizadas para consolidar a paz no continente africano?

Para as ações a serem realizadas para promover uma cultura de paz na África, em primeiro lugar eu sugiro envolver os jovens e as mulheres nesse processo. Com mulheres e jovens na vanguarda do processo, atividades como a pesquisa são muito importantes para fundamentar o contexto e o histórico dos conflitos, e para serem capazes de captar perspectivas. A capacitação na forma de workshops e treinamentos é igualmente estratégica. Também é importante trabalhar pelo desenvolvimento de recursos e financiamento para iniciativas, especialmente no âmbito comunitário, além de oportunidades para compartilhar experiências e polinizar ideias. Todas essas são ideias e elementos muito importantes para a construção da paz no continente africano.

3. O que motivou a sua decisão de se tornar um ativista pela paz?

Minha decisão de me tornar um ativista pela paz foi, na verdade, influenciada por minha experiência pessoal. Cresci em uma comunidade que era atormentada por muita violência e, como jovem, esse era um estilo de vida. Em algum momento, percebi que a violência não nos leva a lugar nenhum, pois, no decorrer disso, perdi alguns amigos e conhecidos, alguns deles esfaqueados e outros jogados na prisão. Foi assim que, por meio do voluntariado na sociedade civil, encontrei uma perspectiva de vida diferente, que girava em torno da paz e de ajudar as comunidades a melhorarem e, desde cedo, comecei a usar o teatro para divulgar na minha comunidade esses valores essenciais. Foi assim que, desde 2007, eu me envolvi nesse trabalho e, desde então, tem sido uma experiência de mudança de vida, com muita inspiração.

A mensagem que estou compartilhando com todos é que não devemos subestimar o poder dos jovens.

4. Qual é o papel dos jovens na construção da paz e no combate ao extremismo violento?

O papel dos jovens na construção da paz e no combate ao extremismo violento é uma conversa cuja importância aumenta cada vez mais, mas como um jovem que tem estado nesse espaço e tem liderado outros jovens, elaborando e implementando iniciativas, direi que o nosso papel tem sido realmente subestimado, porque às vezes sinto que as comunidades, as lideranças e as instituições fecham os olhos para o que estamos fazendo. Porém, tudo isso está mudando rapidamente com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre juventude, paz e segurança.

O nosso papel é muito importante, porque somos nós que mais sofremos em tempos de conflito; também somos os mais vitimados em tempos de guerra e em todos os outros momentos difíceis. A necessidade de responder a este mesmo grupo que foi encurralado ou que é atormentado por esta violência é mais relevante – e por quê? Eu vi isso, o que nos torna estratégicos é que falamos com nossos pares. Na maioria das vezes no meu trabalho, quando vou às prisões, converso com outros jovens que cometeram crimes, eles se identificam comigo e veem os motivos para melhorar. Então, eu acho que o papel dos jovens, em primeiro lugar, a conversa entre pares, é muito transformadora e o fato de que os mesmos desafios que outros jovens enfrentaram antes de resultar em violência são os mesmos que estamos vivendo, mas não usamos a violência. Então, às vezes, nós somos capazes de mostrar isso a eles; existem maneiras melhores de responder aos desafios que você enfrenta, e é isso que temos feito.

Isso é que torna o nosso papel muito estratégico, porque temos a capacidade de convencer nossos pares e desenvolver soluções para os que conduzem esse conflito, porque somos a maioria da população em nossos países em todo o mundo. O que importa não é apenas o número, mas esse zelo, essa paixão ardente e essa capacidade de fazer as coisas da maneira que elas deveriam ser feitas; esse é um dos aspectos que garantem o quão estratégicos os jovens são para a construção da paz.

5. Como é possível envolver mais os jovens nos processos de paz?

Acho que a Resolução 2419 do Conselho de Segurança da ONU veio para dar mais esperança ao envolvimento dos jovens nos processos de paz, dos quais eu pessoalmente fiz parte do processo de desenvolvimento e consultas.

A forma como nós, camaroneses, temos trabalhado nisso, tem sido, em primeiro lugar, tentar desmistificar toda a perspectiva em torno dos processos de paz; onde tem havido muito engano e exclusão de jovens, então nós, em Cameroun, começamos por mobilizar outras partes interessadas, como o Escritório Regional da UNESCO em Cameroun, o Alto Comissariado Britânico, o governo etc., para informá-los sobre o quão estratégico é envolver os jovens no processo de paz. Isso foi muito inspirador porque eles compraram a ideia, e nós estamos trabalhando tudo isso para construir capacidades, o que é um desafio fundamental na discussão do processo de paz. Estamos dando a eles as habilidades necessárias para que se envolvam na mediação e em outros componentes do processo de paz, ao mesmo tempo; a nossa defesa é reforçada para garantir que eles tenham um espaço seguro para se envolver nesse processo, considerando que a mediação e o processo de paz foram feitos para ser algo de idosos, principalmente apenas de homens, que exclui as mulheres.

Nós também enfocamos a pesquisa, que consiste em ser capaz de trazer evidências, garantir e informar as pessoas sobre o papel dos jovens e a necessidade de criar mais espaço para eles. Por exemplo, lançamos uma publicação; “Opportunities and challenges for youth participation in youth processes in Cameroon” [Oportunidades e desafios para a participação de jovens nos processos juvenis em Cameroun, em tradução livre]. Pudemos ir a fundo, pois essa publicação tem sido capaz de levar a outras conversas.

Outro projeto importante em que temos trabalhado é proporcionar aos jovens a oportunidade de se envolverem em iniciativas de construção da paz e processos de paz nas comunidades locais, dando-lhes orientação, mentoria e apoio. É assim que eu tenho me envolvido pessoalmente nesse processo em vários âmbitos, para garantir que ele ressoe no âmbito das comunidades.

6. “Diversidade cultural e patrimonial da África e suas Diásporas: fonte de conflitos ou terreno fértil para a paz?” O que esse tema inspira em você?

Penso que o tema da cultura, da diversidade e do patrimônio são palavras muito importantes para mim como camaronês, em primeiro lugar porque vivo em um país onde, atualmente, enfrentamos conflitos violentos, pelo fato de nossa cultura, nossa diversidade e nossa diáspora não terem sido aproveitadas de maneira adequada. Pude ver como isso gerou violência, então, esse tema será muito importante para um país como o nosso, Cameroun, e para outros países em todo o continente, onde estamos perdendo nossos valores culturais fundamentais, nossa herança, com o modernismo que vem não para complementar, mas que, em vez disso, é usado por outras pessoas para apagar nossos valores culturais e patrimoniais, que deveriam funcionar como unificadores, não como fatores de divisão.

Portanto, eu sinto que administrar a cultura, o patrimônio, a diversidade e a nossa comunidade da diáspora é muito importante para a paz e é algo que temos tentado praticar há muito tempo.

7. Que mensagem de paz você gostaria de compartilhar com todos os que lerão esta entrevista?

A mensagem que compartilho com todos é que nós não devemos subestimar o poder dos jovens, embora pouco se fale sobre os jovens mudando a face do continente africano. Isso não significa que não estejamos fazendo um bom trabalho. Estou convidando chefes de Estado, membros do governo, formuladores de políticas, partes interessadas no desenvolvimento internacional, comunidades e todas as pessoas de boa vontade para que se posicionem e apoiem meninos e meninas e garantam que eles possam liderar as transformações em seus países com espaços seguros, com apoio financeiro e técnico e, claro, com a capacidade necessária para um envolvimento eficiente e sustentável dos jovens na construção do nosso continente.

 

 

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