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Três maneiras de planejar para a equidade durante o fechamento das escolas devido à COVID-19

25/03/2020
04 - Quality Education

Postado em 25 de março de 2020 pelo Blog do Relatório GEM

Por Stefania Giannini, diretora-geral adjunta da UNESCO para a Educação, e Suzanne Grant Lewis, diretora do UNESCO-IIEP

Desde o fechamento das escolas e o isolamento doméstico até a proibição de viagens, os países e os municípios estão intensificando os esforços para reduzir a propagação do novo coronavírus, a COVID-19. Para a educação, essas medidas tiveram como resultado um número recorde de crianças, jovens e adultos que estão sem frequentar escolas ou universidades.

A UNESCO estima que, até 24 de março, 138 países estavam com escolas fechadas em todo o seu território, medida que impacta mais de 1,3 bilhão de crianças e jovens. Além disso, 11 países implementaram fechamentos localizados de escolas.

Nas próximas semanas, isso provocará grandes desafios relacionados à equidade: como os estudantes mais vulneráveis se sairão enquanto as escolas estiverem fechadas?

Compreensão sobre os riscos do fechamento de escolas para os mais vulneráveis

As autoridades de saúde de todo o mundo consideram necessário o fechamento de escolas no contexto desse vírus que se espalha rapidamente, tanto para deter a propagação da doença quanto para mitigar seus efeitos nos sistemas de saúde, que não serão capazes de lidar com um número potencialmente massivo de pacientes gravemente enfermos. Em alguns contextos, o confinamento está se tornando não apenas um ato de solidariedade civil, mas uma medida imperativa para proteger a saúde pública.

No entanto, o isolamento social e o fechamento de escolas, em geral, têm consequências de longo prazo, especialmente para os mais vulneráveis e marginalizados, pois aumentam as disparidades já existentes no sistema educacional. Além das oportunidades de aprendizagem perdidas, muitas crianças e muitos jovens perdem o acesso a refeições saudáveis e estão sujeitos a pressões econômicas e sociais.

Planejar o fechamento das escolas com atenção à equidade

É essencial levar em consideração os riscos de exacerbar as disparidades, e já existem lições a serem tiradas da crise mundial da COVID-19:

1.    Combater a exclusão digital
Embora muitos sistemas educacionais estejam agora oferecendo modalidades de aprendizagem online enquanto as escolas estão fechadas, é imperativo combater a exclusão digital para avançar. Isso inclui examinar questões relacionadas ao acesso, preparação dos professores e comunicação entre a escola e a família. Antes e depois do fechamento das escolas, as parcerias público-privadas podem ajudar a garantir que todos os estudantes tenham acesso à tecnologia da informação ou a modalidades de rádio e televisão que também são relevantes em alguns contextos, e que foram utilizadas com sucesso em situações de crise.

É essencial treinar professores para usar sistemas digitais de gerenciamento de aprendizagem e pedagogias de aprendizagem online – antes das crises –, para que estejam preparados para a transição da modalidade presencial para a modalidade de aprendizagem online durante um período de crise. No entanto, para professores que se encontram em um “território desconhecido”, pode ser organizada uma breve sessão de treinamento transmitida ao vivo. Estabelecer linhas de comunicação entre professores e pais antes das crises, bem como mantê-las, são ações essenciais para apoiar as crianças com maior risco, já que elas podem aprender de casa.

2.    Garantir refeições saudáveis além das fornecidas pelas escolas
Soluções para alcançar estudantes que dependem de refeições nas escolas também são importantes. A postagem de ontem (24 de março) do blog da UNESCO fornece muitas lições sobre as abordagens de diferentes países. As estratégias podem incluir a mobilização de ônibus escolares para entregar merendas e o estabelecimento de parcerias com serviços de entrega de alimentos. Outra solução criativa adotada atualmente em San Diego, nos Estados Unidos, é trabalhar com autoridades de alimentação e nutrição para fornecer refeições diárias que podem ser distribuídas via drive-thru ou walk-up.

3.    Planejar soluções de aprendizagem inclusivas
As autoridades educacionais também devem ter um cuidado especial ao planejar, considerando as diversas necessidades de todos os estudantes durante o fechamento das escolas. Isso é fundamental para os estudantes com deficiências de aprendizagem, que podem ter dificuldades para trabalhar de forma autônoma e à distância. Recomenda-se que sejam mantidas oportunidades mínimas para a aprendizagem em sala de aula, com pequenos grupos de estudantes com necessidades especiais. Também pode ser necessário fornecer aprendizagem online individual direta, por meio de breves sessões diárias com professores e videoconferências com outros estudantes, assim como o fornecimento de recursos para pais e cuidadores que assumirem o papel de professores durante o fechamento das escolas.

O apoio da UNESCO aos governos ao implementarem o fechamento de escolas

A UNESCO fornece orientação para apoiar os sistemas educacionais durante a crise, na medida em que se modificam do modo tradicional de aprendizagem para a aprendizagem digital; além disso, a Organização fornece recursos educacionais digitais gratuitos e um repositório de plataformas nacionais de aprendizagem estruturadas para apoiar a continuidade dos estudos com base curricular. Mais informações sobre a resposta da UNESCO à COVID-19 estão disponíveis aqui.

O Instituto Internacional de Planejamento Educacional (UNESCO-IIEP) também fornece às autoridades educacionais cooperação técnica para um planejamento sensível a crises, de modo a ajudar a enfrentar todos esses desafios relacionados à oferta equitativa de educação em tempos de crise. Esse planejamento não apenas ajuda a salvar vidas, mas também pode reduzir os custos de recuperação, pois funcionários e parceiros da educação podem antecipar os riscos e agir com antecedência.

No entanto, esse planejamento não deve ficar parado com correções de curto prazo. Deveria avançar para uma prática sistemática de prevenção e preparação para crises. Para os sistemas educacionais, isso significa não apenas responder aos desafios atuais, mas também trabalhar para impedir, antecipar, mitigar e se recuperar de crises futuras, tanto na educação quanto por meio da educação.