Idea

Vamos nos unir, agora!

20/03/2020
Paris,
04 - Quality Education

por Stefania Giannini, diretora-geral adjunta de Educação

Nós estamos vivendo em tempos de perturbações e incertezas, mas essa referência temporal não diz respeito à revolução digital, mas a uma pandemia global que praticamente todos os países estão lutando para conter.

Em 2015, Bill Gates alertou em um prescient TED talk, que o maior risco de uma catástrofe mundial viria na forma de um vírus altamente infeccioso, e disse também que nós não estávamos prontos para combatê-lo.

É arrepiante ouvir essas palavras atualmente, seis anos depois, quando as cidades estão em quarentena, as pessoas em confinamento e a vida cotidiana se tornou uma luta para salvar vidas, com os sistemas públicos de saúde em algumas das economias mais avançadas do mundo sendo pressionados até seus limites – e ainda mais, de forma dramática, em países frágeis.

Além dos recursos – construção da resiliência do tecido humano

Ninguém poderia ter previsto que, no ano de 2020, mais de metade da população estudantil de todo o mundo – 1,2 bilhão de crianças e jovens – seria forçada a permanecer longe das escolas por causa de um vírus.

Isso simplesmente não tem precedentes na história.

Em mais de 120 países onde as escolas estão fechadas, todas as famílias são afetadas. A pressão sobre os estudantes separados de seus colegas, pais, cuidadores, professores e educadores é incalculável.

Os sistemas educacionais já não estão conseguindo se tornar inclusivos, empoderar os estudantes com competências para o século XXI e dar aos professores uma situação justa – sem falar em sua incapacidade de migrar para os ambientes virtuais.

Agora, os governantes estão correndo contra o tempo para manter a educação escolar em atividade por meio de canais alternativos. Todos os ministros da Educação estão buscando as soluções mais adaptadas para a educação a distância, que vão do rádio e da televisão e chegam às salas de aula virtuais.

Contudo, o desafio vai muito além dos recursos, das plataformas, dos conteúdos e da conectividade – ele diz respeito à resiliência do tecido humano, ao apoio emocional e ao cuidado para com as pessoas mais frágeis e vulneráveis.

Ninguém poderia ter previsto que, no ano de 2020, mais de metade da população estudantil de todo o mundo – 1,2 bilhão de crianças e jovens – seria forçada a permanecer longe das escolas por causa de um vírus.

Stefania Giannini, diretora-geral adjunta de Educação

Como uma comunidade internacional, nós não podemos deixar que a crise agrave as desigualdades.

Quando a UNESCO convidou ministros da Educação a participarem de uma reunião virtual sobre as respostas à COVID-19, mais de 70 cpaíses se inscreveram – os quais vão daqueles onde todas as escolas estão fechadas, como China, Japão, Coreia do Sul, Itália e Irã, até outros que estão implementando medidas de prevenção, incluindo México, Colômbia e Ilhas Maurício.

O interesse espontâneo manifestou a urgência de se aprender uns com os outros, bem como de se compartilhar soluções em situações de estresse.

Somente uma plataforma multilateral pode possibilitar isso.

Desde o lançamento de uma lista selecionada de soluções de educação a distância, inúmeros indivíduos, organizações da sociedade civil (OSCs) e empresas se apresentaram para compartilhar de forma gratuita o seu know-how e suas plataformas. Uma comunidade internacional de práticas se reuniu, compartilhando abordagens, expertise e desafios por meio de uma série especial de webinars.

Mais uma vez, apenas uma plataforma multilateral pode possibilitar isso.

Esse espírito de solidariedade internacional – que está relacionado ao valor intrínseco da educação – deve agora se traduzir a uma cooperação concreta para apoiar os países em suas respostas.

O papel do multilateralismo: aprender com as experiências e aumentar a sua escala

A emergência sanitária atual ocorre ao mesmo tempo em que 260 milhões de crianças e jovens já não frequentavam a escola antes da crise, enquanto outros milhões estavam na escola, mas não aprendiam nem mesmo o básico. Muitas crianças que estavam em situações frágeis antes da crise, ou prestes a abandonar os estudos, certamente nunca virão a frequentar de novo a escola após a crise.

Se essa crise não for capaz de convencer todos a investirem em sistemas educacionais mais fortes e inclusivos, nada poderá fazê-lo.

Este é um momento para a comunidade global se unir em torno da educação de qualidade, inclusiva e equitativa, assim como da aprendizagem ao longo da vida – o objetivo em relação ao qual todos os governos se comprometeram cinco anos atrás, como parte da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, de não deixar ninguém para trás.

Esta é a hora de compartilhar dados e soluções, e para conectar essa gama de conhecimentos, capacidades e talentos, orientados pelos princípios da inclusão e da igualdade.

Esta é a hora de se unir não apenas para garantir que a educação não seja interrompida, mas para se investir no poder transformador que a educação tem e aplica em pessoas, comunidades e sociedades. Não podemos nos esquecer do impacto da educação no combate à pobreza e às desigualdades, no empoderamento de meninas e mulheres, e na melhoria da saúde, pois o bem-estar e a prevenção exigem conhecimento.

O compartilhamento de conhecimento já está acontecendo – e aumenta com grande velocidade. As redes, os centros e os institutos da UNESCO em todo o mundo estão totalmente mobilizados para organizar webinars, seminários, recomendações e compartilhamento de conhecimento. Ao mesmo tempo em que há muito a se aprender da ampla gama dessas experiências, o desafio compartilhado consiste em aumentar sua escala sob as pressões do momento – e não aprofundar as exclusões humanas e digitais.

Como parte de sua responsabilidade de liderar no campo da educação, a UNESCO está lançando uma coalização global, reunindo parceiros para apoiar as respostas dos países. A Coalização é movida pela convicção de que o investimento em educação a distância deve mitigar a interrupção imediata causada pela COVID-19, como também estabelecer abordagens para desenvolver sistemas educacionais mais abertos e flexíveis para o futuro.

Todas as noites, às 8h, em Paris, onde está localizada a Sede da UNESCO e a cidade na qual eu vivo, pessoas vão a suas janelas para bater palmas em homenagem à coragem dos trabalhadores da área de saúde.

Eu me junto a eles nesse ritual, pensando também nos milhões de crianças, adolescentes, professores e pais que todos os dias têm de lidar com a nova realidade do ensino doméstico – sua determinação de compartilhar a educação e manter a aprendizagem merece o nosso respeito, o nosso reconhecimento e, acima de tudo, o nosso apoio.

Nós não sabemos quanto tempo essa pandemia vai durar. Porém, nós sabemos com certeza que devemos tratar de suas consequências hoje – de forma corajosa, inovadora e conjunta.

Este é o primeiro de uma série de artigos que a UNESCO irá postar sobre a resposta à COVID-19.

Stefania Giannini
Assistant Director-General for Education

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